Pregações

Um sentido para a vida

Pregada por Irno Prediger · Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

Março é o mês em que a comunidade trata do tema do pastoreio, e o primeiro texto é o mais conhecido de todos: o Salmo 23.

Ele foi escrito há cerca de três mil anos por Davi, rei de Israel. Apesar de ocupado com o governo, ele costumava sair de manhã cedo, antes de clarear, com um instrumento de cordas, e transformava suas orações e meditações em poesia e canto — boa parte dos 150 salmos é dele.

E para falar da sua relação com Deus, Davi recorre à experiência da própria juventude: antes de ser ungido rei, o mais novo dos filhos de Jessé cuidava dos rebanhos do pai.

Repare num detalhe: o salmo não fala da igreja nem do povo de Deus. Fala “o Senhor é o meu pastor”. É existencial, pessoal.

Primeiro: algo que una as peças

A vida de uma pessoa é composta de milhares de coisas — o lar, o trabalho, os relacionamentos, as amizades, o crescimento. É como um quebra-cabeça de milhares de peças que ninguém consegue montar sozinho. Fecha de um lado, não fecha do outro; quando parece que fechou, surge coisa nova.

E o rebanho também não é só de ovelhas mansas. Tem cabrito, que não se sujeita fácil, que quer seguir o próprio caminho e ainda trepa em árvore. Isso também está dentro de cada um de nós.

O que Davi diz é que Deus é quem mantém o rebanho unido — quem junta as peças. A pregação usa outra imagem: as flores sozinhas têm espinhos e folhas que caem; o vaso não só dá base, ele une.

Sem essa intimidade, a vida não fecha: fica como um bando de cabritos correndo para todo lado.

E há a promessa junto: “nada me faltará”. Não significa dinheiro sobrando — significa que o que falta não faz falta.

Segundo: algo que dê forças

Costumamos imaginar que a vida faz sentido quando está tudo bem. O problema é que nunca está tudo bem: resolve-se um problema e aparece outro, e às vezes vários de uma vez. Um casamento que acaba, um bom emprego que se perde — e vem a crise, e com ela a pergunta sobre que sentido tem tudo isso.

É aí que a pregação aponta para onde de fato as coisas se decidem: no interior. Somos uma geração que cuida muito da aparência — academias, cosméticos —, mas não adianta lavar o carro por fora e não cuidar do motor. Nunca se teve tanto acesso a bens e a cuidados de saúde, e nunca houve tanta gente com ansiedade, estresse e depressão, coisas que as gerações anteriores conheciam pouco.

Davi orou: “em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas; restaura-me o vigor”. É linguagem figurada para dizer que a alma está saciada.

A pregação lembra uma senhora, de família bonita e vida aparentemente completa, que disse: tenho tudo, mas estou vazia; não consigo mais achar graça na vida.

E cita um poeta russo que cresceu sob o regime comunista e escreveu: “homem, pare — tu corres além de ti; homem, pare, tu te esqueces de Deus”.

Há ainda a história de um indígena que, andando por uma estrada no deserto americano, aceitou carona de um motorista. Nunca tinha entrado num carro. Poucos minutos depois pediu para parar, desceu e disse que ficaria ali — porque a sua alma tinha ficado para trás e ainda não conseguira acompanhar.

A saída proposta é simples e concreta: reservar um tempo diário, conforme o que a rotina permitir, para ler um trecho da Bíblia, falar com Deus com naturalidade sobre a própria vida e a família, e manter o ouvido aberto para o que ele tem a dizer.

Terceiro: sentir que se tem valor

Todo ser humano precisa sentir que é útil, que tem valor. E a pregação começa pela infância: a criança que ouve o tempo todo que não presta, que faz tudo errado, que é burra, carrega isso para a vida adulta — desenvolve o que ele descreve como sentimento de cachorrinho de rabo encolhido, acostumado a apanhar.

A sociedade reforça: no emprego você vale se produz; na escola, se tira nota alta. E como quase ninguém é sempre eficiente, muita gente se sente sem valor — e passa a juntar coisas, casa, carro do último ano, para provar algo à família e aos outros.

Contra isso vem a afirmação central: o seu valor diante de Deus é enorme, e maior do que diante do patrão, da família ou de quem quer que seja. Ele ama do jeito que se é, com qualidades e defeitos — o que não elimina corrigir e se arrepender do que está errado. Foi por isso que ele deu o Filho, que não precisava sair da glória para ser humilhado neste mundo. E ser filho de Deus não é pouca coisa: não há cargo neste mundo maior do que isso.

Davi escreve “preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos”. Ou seja: as adversidades e os problemas desta vida não impedem que Deus presenteie e valorize. Provação não é sinal de abandono.

E quando diz “unges a minha cabeça com óleo”, não se trata da unção de sacerdotes para um cargo. Era o costume de três mil anos atrás: ao receber bem alguém em casa, derramava-se óleo de oliva sobre a cabeça do visitante — o gesto de boas-vindas daquela época, no lugar do nosso cafezinho. Davi está dizendo: tu me recebes na tua presença.

O cálice que transborda

Quem tem a alma repleta transborda para os que convivem ao redor, em vez de andar vazio. O sentido da vida não se resolve em possuir, experimentar coisas novas ou desfrutar — resolve-se na intimidade com aquele que é o bom pastor.

A pregação fecha com o duplo significado da palavra sentido. Além de significado, sentido é direção — para onde se pode ir. E o salmo termina olhando para frente: “a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto viver” — ou, em outras traduções, “habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.

É uma perspectiva que vai além, porque há algo muito especial preparado depois de se passar pelo vale da sombra da morte.

E vale a comparação final: um pai pode encher o filho de presentes, mas o filho não queria os presentes — queria o abraço, o amor e a presença do pai. Assim Deus deseja a nossa presença.