Na semana anterior a pregação tratou do pastor e do sentido para a vida, a partir do Salmo 23. Agora o foco muda: por que a Bíblia nos compara tantas vezes a ovelhas, e por que a ovelha precisa ouvir a voz do bom pastor?
Deus disse: ouçam
O ponto de partida é a transfiguração, em Mateus 17. Pedro vê Moisés e Elias e já quer levantar tendas — e enquanto ainda falava, veio a nuvem e a voz: “este é o meu Filho amado, de quem me agrado. Ouçam-no”.
A pregação aplica isso à oração. Muitas vezes chegamos com pressa de falar: obrigado por isto, me dá aquilo, me dá aquele outro, amém — e levantamos. Não damos tempo de ouvir. Deus quer responder, inclusive dizendo que um pedido não será atendido porque prejudicaria, e que outro fica para depois. Mas é preciso ficar para escutar.
Vozes o tempo todo
O problema é que nunca há silêncio. Vou ao culto ou não vou; vou ao pequeno grupo ou não vou; vou resolver esse assunto ou deixo; compro isso ou não compro. Há sempre alguém falando dentro de nós.
A Bíblia está cheia de exemplos. No jardim, Adão e Eva ouviam a voz de Deus continuamente — até darem ouvidos a uma voz estranha que perguntou “foi assim mesmo que Deus disse?”. E aquela voz não queria saber o que Deus tinha dito: queria descobrir o quanto eles conheciam de Deus, para saber onde atacar.
Há também as vozes boas: a sarça que arde diante de Moisés, a voz no batismo de Jesus — “este é o meu Filho amado” —, a voz que derruba Paulo a caminho de Damasco. Deus fala de muitas maneiras; o que muda é como está o nosso ouvido.
As ovelhas conhecem a voz
O texto é João 10.1-16: “ele chama suas ovelhas pelo nome e as leva para fora… elas o seguem porque conhecem a sua voz, mas nunca seguirão um estranho”.
A pregação ilustra com um caso de tribunal. Um homem foi acusado de roubar ovelhas, e o juiz mandou trazer o rebanho ao pátio. Pediu ao acusador que chamasse os animais: eles se afastaram, assustados. Pediu ao acusado que chamasse: as ovelhas vieram correndo. Estava resolvido quem era o dono — porque a ovelha conhece a voz do seu pastor.
O que as ovelhas são
Aqui vem a parte que explica a comparação, e ela não é lisonjeira.
A ovelha é dócil e obediente, mas ingênua: não tem garras, dentes fortes nem veneno, e praticamente não sabe se defender. Pode ver o perigo à frente e continuar andando rumo ao precipício. Houve um caso noticiado na Turquia em que uma ovelha caiu num despenhadeiro e o rebanho inteiro foi atrás, enquanto os pastores tomavam café da manhã.
Não tem bom faro nem boa visão, e come tudo que encontra pela frente, sem distinguir erva boa de erva venenosa — só o olho experiente do pastor consegue discernir. É medrosa: se não vê, não ouve nem sente o cheiro do pastor, dispara sem rumo. E se perde do grupo por qualquer distração.
À noite as ovelhas se dão cabeçadas, e alguma acaba caindo sem conseguir se levantar. Se ficar assim por poucas horas, morre — o próprio estômago comprime os pulmões. Por isso o pastor passa algumas vezes durante a noite para levantar as caídas.
E há o detalhe que explica um verso conhecido. Naquela região havia moscas que depositavam ovos em ferimentos na cabeça do animal; as larvas chegavam ao cérebro e deixavam a ovelha desesperada, correndo e dando cabeçadas em pedras. Para evitar isso o pastor derramava óleo sobre a cabeça delas — “unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda”. Davi era pastor e sabia do que estava falando.
A comparação aplicada
Ele nos resgatou quando estávamos desgarrados. Quando damos cabeçadas, vem nos levantar para não morrermos. Unge nossa cabeça para afugentar as moscas que nos distraem da presença dele.
Porque, de fato, não agimos tão diferente: pensamos que somos sábios e somos ingênuos; nos deixamos levar por conversas que não levam a nada; damos cabeçada na vida por não ouvir a orientação — “vai por aqui” — e respondemos, teimosos, que sabemos para onde vamos.
A pregação traz ainda uma prática de pastoreio que ela própria estranha: dizem que, com uma ovelha muito fujona, o pastor quebrava as pernas dela com o cajado e a carregava no colo durante toda a recuperação, alimentando e cuidando, até que aprendesse a confiar — e depois dificilmente fugia de novo. Quem prega admite ter achado aquilo pesado, e devolve a pergunta: será que às vezes Deus precisa nos derrubar para depois nos erguer?
As ovelhas desgarradas
Há muitas ovelhas perdidas ouvindo outras vozes, sem rumo e sem esperança — e a igreja precisa ser a voz do bom pastor indo atrás delas. Muitas já foram do rebanho e se iludiram.
Aqui a pregação fica pessoal e dura. Quem prega conta de um rapaz que conheceu desde pequeno na igreja e que reencontrou no presídio. Disse a ele que ainda havia chance de voltar, e ouviu uma resposta franca: sei o que aprendi com vocês, sei que estou errado, mas não prometo que vou mudar. Hoje esse rapaz está no cemitério, morto num assalto. E fica a pergunta que não se resolve — será que eu poderia ter feito mais?
A conclusão não é culpa, e sim tarefa: as ovelhas fortes suportam as fracas e fazem o que for bom para edificá-las. A igreja deve ser um hospital que trata dos males da alma, indo ao encontro de quem se feriu, se magoou ou se decepcionou.
O pastor vai à frente
Um detalhe que a pregação faz questão de marcar: gado se toca por trás, com o boiadeiro gritando. Ovelha, não — o pastor vai à frente chamando, e elas seguem.
E Jesus contrasta o bom pastor com o assalariado, que foge quando vem o lobo porque não se importa com as ovelhas, e com o ladrão que “vem apenas para roubar, matar e destruir”.
Que vozes você tem ouvido
A pregação encerra listando vozes bem concretas. A que diz para não ofertar. A que sugere montar uma igreja como negócio, olhando o carro e a casa de um pastor. As fofocas e conversinhas que agitam o rebanho e criam problema interno — e que a igreja precisa aprender a resolver conversando, não na cabeçada.
E as vozes que os mais jovens vão ouvir: que você é fanático, que o mundo é mais atrativo, o convite para levar o dom que Deus deu para outro lugar.
Quem prega termina com o próprio testemunho. Quando veio de Novo Hamburgo para o trabalho missionário em Três Lagoas, ouviu que era loucura deixar tudo e ir para tão longe. Deu ouvidos à voz do bom pastor. E fica se perguntando onde estaria hoje, e se ainda estaria servindo, caso não tivesse obedecido. Já aposentado, é grato pelo cuidado que recebeu ao longo do caminho — porque o bom pastor sempre foi fiel; o problema é que a ovelha nem sempre é obediente.
A quem você vai dar ouvidos?