A pregação abre com uma ilustração. Um ônibus lotado atola no lamaçal, e os passageiros se dividem em quatro grupos: os que descem e vão ajudar a empurrar; os que vão embora porque não querem se envolver; os que ficam olhando; e os que permanecem sentados dentro do ônibus, como se o problema não fosse deles — ainda fazendo peso.
Em qual desses grupos estamos? Porque, como diz Mateus 9.37, “a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos”.
E há lugar: no louvor, na escolinha com as crianças, nos pequenos grupos, na liderança, na diretoria. O problema não é falta de vaga — é falta de gente disposta a arregaçar a manga.
O contexto de Isaías 6
O texto é Isaías 6.1-8, e ele não cai do céu: o profeta aparece no meio de três crises simultâneas.
**Crise política.** “No ano em que o rei Uzias morreu.” Uzias assumiu o trono aos dezesseis anos e reinou 52 anos, trazendo prosperidade e segurança. Foi bom governante, mas no fim tropeçou — engrandeceu-se, desobedeceu ao fazer o que não lhe competia, e morreu leproso. Com a morte dele começaram as disputas de poder.
A pregação faz aqui um aparte para os mais jovens: se você acha que é novo demais, que ainda não está preparado, lembre que aquele rei era um adolescente de dezesseis anos quando assumiu.
**Crise social.** Exploração dos ricos sobre os pobres, homicídios, injustiças, violência — e o pior, cometidos por quem se dizia povo de Deus. E vem a ironia: ainda bem que essas coisas só aconteciam naquele tempo, não é? O ser humano continua o mesmo desde a queda.
**Crise espiritual.** Israel havia trocado o Senhor por ídolos, e os pecados eram tão graves que Deus chega a chamá-los de Sodoma e Gomorra.
A visão
É nesse cenário que Isaías — provavelmente também jovem — entra no templo e vê “o Senhor assentado num trono alto e exaltado”.
Repare no contraste: uma nação ficara sem rei, com o trono vazio e disputado. Mas há um trono que jamais estará vazio.
Os serafins proclamam “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos”. E a pregação chama a atenção para a repetição: em nenhum lugar a Bíblia diz “Deus é amor, amor, amor” ou “justo, justo, justo”. É a santidade que se repete três vezes — porque o amor, a bondade e a misericórdia partem dela.
A aba da veste enchia o templo. A presença de Deus se faz presente onde o povo dele está reunido, mesmo quando não se percebe. E vem uma observação certeira: Deus tem prazer em estar no meio do seu povo — o problema é que muitas vezes o povo é que não tem prazer em estar na presença dele.
O reconhecimento
Diante daquilo, Isaías grita: “ai de mim! Estou perdido, pois sou um homem de lábios impuros”. Naquela época se acreditava que quem visse a Deus morreria — daí o susto.
Quando Deus se manifesta, ele mostra quem realmente somos. E reconhecer isso é difícil, porque é muito mais fácil enxergar o pecado do outro.
A pregação ilustra com uma piada. Um homem volta de viagem e pergunta ao conhecido o que aconteceu na cidade. “Passou um vendaval e derrubou a minha casa.” E o conhecido, sabedor da Palavra, responde que já tinha avisado para ele se arrepender, senão a mão de Deus pesaria sobre a vida dele. Ao que o outro observa: “pois é, e como é que a sua casa também caiu?” Resposta: “os desígnios de Deus são incompreensíveis”.
Então um serafim toca os lábios dele com uma brasa do altar: “a sua culpa será removida e o seu pecado será perdoado”.
Cuidado com o que se canta
Só depois da visão, do reconhecimento e da purificação é que vem o convite: “a quem enviarei? Quem irá por nós?” E a resposta: “eis-me aqui, envia-me a mim”.
A pregação cobra coerência: cantamos esse verso em hino, mas você está disposto a ser enviado? Inclusive para um lugar onde não quer ir? Vale prestar atenção na letra do que se canta, para não estar mentindo sem perceber.
E um aviso: se você não quer sair do comodismo, não faça essa oração. Deus vai ouvir e vai responder — e a resposta pode não ser do jeito que você quer. Pode não ser uma cidade grande e bonita; pode ser uma tribo, ou um país onde quem crê é perseguido.
O que custou dizer sim
Aqui quem prega conta a própria história, e é ela que dá peso à mensagem.
Ele já frequentava a igreja e conhecia a Palavra quando começou a se incomodar com a ideia de que Deus esperava dele mais do que sentar num banco, ouvir e ir para casa. Foi numa manhã, ouvindo justamente uma pregação sobre esse texto de Isaías, que a inquietação virou oração: “Senhor, envia-me a mim”.
A resposta veio como convite para um trabalho missionário numa cidade ainda indefinida — que acabou sendo Três Lagoas. No caminho para cá, a família sofreu um acidente e quase perdeu a vida; perderam o carro.
Depois vieram os custos maiores. Ele estava a mil e quinhentos quilômetros quando o pai teve um infarto e precisou descer às pressas para enterrá-lo. Antes da cirurgia, a irmã pediu aos médicos alguns minutos a sós e conversou francamente com ele sobre o risco e sobre voltar para Jesus; ele balançou a cabeça e encheu os olhos d’água. Cerca de um ano depois, a mãe teve um AVC — e a última coisa que fez, segundo a irmã, foi olhar para ela, sorrir, pôr a mão em seu rosto e fechar os olhos. Ficou em coma cerca de trinta dias.
Dizer sim significou deixar pais e irmãos para trás. Quando os filhos casaram, quem ele convidou foi a igreja — a família do sul não viria de tão longe. “A minha família hoje são vocês.”
E há uma observação sobre o pai que vale por si: ele conhecia a Palavra e aconselhou o filho a continuar firme naquele caminho, embora ele mesmo não o seguisse mais. Antes de dar conselho, é preciso dar o exemplo.
Quem Jesus chama
A pregação compara duas cenas. Em Mateus 4 e 9, Jesus chama Pedro, André, Tiago, João e Mateus — todos estavam trabalhando, e todos largam o que faziam e vão, sem discutir. Em Lucas 9, aparecem os que respondem com “deixa-me primeiro fazer isto, depois aquilo” — e ouvem que quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino.
E fica registrado um detalhe: Jesus chama quem está trabalhando. Não chama preguiçoso nem quem vive escorado.
Deus não empurra ninguém para a obra dele. Ele convida — e o convite espera resposta.
Quinze por cento
Perto do fim, a pregação cita uma estatística segundo a qual, numa igreja, cerca de 15% dos membros carregam o restante nas costas — são os que trabalham, enquanto os outros ficam olhando, criticando ou apenas mandando. E acrescenta que a proporção costuma valer também para o sustento financeiro do trabalho.
Daí a extensão do chamado: dizer “eis-me aqui” também no bolso. Não porque a igreja deva viver falando de dinheiro — quem prega diz não gostar do assunto —, mas porque as cadeiras, o som e o trabalho custam.
A pregação encerra com o convite ainda de pé: “a quem enviarei? Quem irá por nós?” E com um lembrete de que há quem esteja há dez, quinze, vinte anos dentro de uma igreja sem ter entendido o chamado.