Pregações

Somente a Escritura

Pregada por Daline Moeller · Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

O ponto de partida é Mateus 22.29, quando os saduceus questionam Jesus sobre a ressurreição: “o erro de vocês está no fato de não conhecerem as Escrituras nem o poder de Deus”.

E vem a pergunta desconfortável: quem de nós tem o hábito de pegar a Bíblia e **estudá-la**? Não apenas ler um versículo e meditar, como num devocional — mas ler um texto e perguntar o que significa, o que tem a ver comigo, por que está ali. Quando o Novo Testamento diz “porque as Escrituras dizem”, quem vai procurar onde isso está no Antigo, e por que está sendo citado?

Quem prega conta que a primeira vez que lhe fizeram esse tipo de pergunta foi na faculdade de teologia — e que ficou com vergonha. Mas a Escritura não é ferramenta do teólogo: é ferramenta do cristão.

Há uma constatação dura no meio disso: para muitos cristãos, a Bíblia serve para o pastor preparar o sermão e entregar à igreja. Se não fosse assim, essas pessoas também se apropriariam dela.

O grande mandamento

Calados os saduceus, chegam os fariseus — especialistas na Lei — com outra pergunta: qual é o grande mandamento?

“Ame o Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: ame o seu próximo como você ama a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.”

Vale notar que, quando o Novo Testamento fala em “as Escrituras”, está falando do Antigo Testamento — eles ainda estavam vivendo o que viria a ser escrito no Novo.

E vale notar também o que Jesus resume ali: a Lei e os Profetas. Não a Bíblia inteira. Porque a Escritura vai além de mandamento e ordem.

Quatro jeitos errados de se relacionar com a Bíblia

**Como manual.** Ninguém lê manual — só quando dá errado. A pregação usa o exemplo do marido que monta o móvel primeiro e só depois de errar vai ver as instruções. Tratar a Bíblia assim é deixá-la arquivada e buscá-la só na emergência. E é diminuí-la, porque ela não é só um conjunto de regras.

**Como livro de histórias antigas.** Quem a lê assim procura a “moral da história”, como nos livros infantis da lebre e da tartaruga. O problema é que ela passa a parecer antiga, desatualizada e distante — e vira só um livro para corrigir conduta.

**Como livro de regras**, quase um estatuto do que pode e do que não pode. Aí ela deixa de anunciar vida e liberdade e fica só na lei.

**Como um livro do qual se escolhem os capítulos.** Pula-se Levítico e Números; leem-se os textos sobre amor, paz e salvação, e não se leem os que confrontam.

A pregação dá dois exemplos do que a gente evita. Mateus 5.37: “seja o seu sim, sim, e o seu não, não; o que passar disso vem do maligno” — aplicado, por exemplo, a quem marca cinco horas e chega cinco e meia. E Ananias e Safira, em Atos: um texto do começo da igreja que quase ninguém conhece e sobre o qual quase ninguém prega, porque mexe com o que não se quer mexer.

A pergunta que inverte tudo

Ao ler a Bíblia colocamos, sem perceber, um par de óculos — e é ele que define o que enxergamos. O mais comum é interpretar o texto segundo o nosso pensamento.

Deveria ser o contrário: **é o texto que deve nos interpretar**. A Bíblia deve me moldar, e não eu moldar a Bíblia. Quando essa lógica se inverte, ela começa a mexer com o nosso eu e com o nosso pecado.

Como resumir a Escritura

A resposta proposta são dois versículos: João 3.16-17 — “porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito… pois Deus enviou o seu Filho ao mundo não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele”.

Porque a história de um Deus que vem ao nosso encontro atravessa de Gênesis a Apocalipse, e cada história ali dentro tem a ver com Cristo — inclusive as do Antigo Testamento que parecem deslocadas.

O arco fica assim: Gênesis 1 e 2, Deus cria todas as coisas. Gênesis 3, a criatura se rebela e é separada dele. De Gênesis 4 a Malaquias, as consequências dessa escolha e um Deus que chama esse povo de volta sem parar, mostrando o tempo todo que eles não conseguem cumprir a Lei. Nos Evangelhos, ele envia o Filho, que morre e ressuscita. E daí em diante caminhamos confiando e aguardando a volta dele.

É por isso que não se pode retirar nem acrescentar partes: cada relato, cada genealogia, cada lei constrói o todo. A pregação alerta que existem grupos que fazem exatamente isso — pegam versículos fora de contexto e afirmam que Deus está dizendo algo; basta ler o capítulo inteiro para ver que não está.

E dá um exemplo de leitura truncada que virou lugar-comum: usar “ame o próximo como a si mesmo” como resumo da Bíblia. Mas esse é o **segundo** mandamento. O primeiro é amar a Deus acima de tudo — e é ele que regula o segundo. Na prática, isso muda muita coisa.

Ler na ordem em que aconteceu

Uma sugestão concreta: ler a Bíblia inteira, de preferência em ordem cronológica, já que os livros não estão dispostos por tempo. Existem aplicativos que organizam assim.

Sem isso, sabe-se a história de Davi e a de Sansão, sabe-se que Adão e Eva pecaram — mas não se entende por que o povo precisou sair do Egito, além do fato de serem escravos.

E há textos que só fazem sentido no conjunto. Por que Deus mandou Oseias casar-se com uma prostituta, duas vezes? Lido solto, parece que Deus está maltratando o profeta. No contexto, é didática: “vocês são essa mulher, e eu sou aquele que chama de volta”. A história de Israel com Deus é basicamente isso — “volta para mim”, repetido.

Amar a Deus primeiro, e por isso o próximo

Jesus manda amar a Deus primeiro porque, se Deus está no centro, não sou eu que estou. E o segundo mandamento também não coloca o próximo no centro.

Mas quando a identidade está firmada nele, torna-se possível perdoar o próximo, cuidar dele como se cuida de si, desejar o melhor para ele como se deseja para si, e se importar com ele como a gente se importa consigo o tempo todo.

Um passo prático

Para o cristão é óbvio, na cabeça, que a Escritura é central. Na prática, não é — e precisa se tornar.

Não deixe a Bíblia virar manual arquivado em casa. Use-a todos os dias, nem que seja um versículo. Leve-a ao culto: quando um texto chamar a atenção na pregação, anote ali. Quem prega conta que usa normalmente uma Bíblia surrada, da época da faculdade, cheia de anotações e observações de professores — coisa que não consegue fazer no aplicativo do celular.

E se não achar tempo, ache um minuto. A pregação até brinca com onde encaixar: há quem deixe o devocional em cima da caixa do vaso, já que muita gente passa bastante tempo ali com o celular.

O ponto é que a Bíblia precise fazer parte do dia a dia como comer, beber água e se exercitar. E isso transforma quem a pessoa é — e liberta de muita coisa que aprisiona.