Por que voltar a pregar sobre coisas tão básicas para quem já é cristão? A pregação responde antes de começar.
Primeiro, porque somos pecadores, e a tendência é sempre desviar. Você começa no caminho, dá um passo para o lado, depois outro — e quando percebe já está longe. Segundo, porque vivemos num mundo que não é orientado por princípios bíblicos, e que nos puxa constantemente.
Há uma observação sobre isso que vale registrar: até algum tempo atrás era comum ouvir cristãos dizerem com orgulho que a nossa Constituição tinha bases bíblicas. Hoje quase não se ouve mais.
Responder as perguntas certas
Aqui entra um conselho que quem prega recebeu de uma professora na faculdade de teologia, e que carrega desde então.
Ela dizia: vocês, teólogos, precisam aprender a responder as perguntas certas. Enquanto as pessoas perguntam uma coisa, vocês estão tentando responder outra. Enquanto se discutia batismo por imersão ou aspersão e como proceder na Ceia, a sociedade perguntava sobre **vida** e sobre **identidade**.
E o alerta: se a teologia não responder, a filosofia, a sociologia, a antropologia e a psicologia vão responder — e a teologia fica de fora.
O exercício proposto é esse: ler o nosso tempo como os reformadores leram o deles.
Raízes profundas
O texto é Colossenses 2.6-15. “Assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele, enraizados e edificados nele, firmados na fé, transbordando de gratidão.”
Paulo escreve com um certo temor de que aquela igreja se desvie. E o que ele diz é: aquilo que vocês receberam é o que deve sustentá-los — não aquilo que vocês conseguem fazer com as próprias forças.
A pregação ilustra com uma memória de infância. Voltando de bicicleta de um evento de crianças com o irmão mais velho, ela foi surpreendida por um vendaval e os dois se abrigaram debaixo de um pé de manga. Chegando em casa, os dois enormes pés de manga do terreno estavam no chão — arrancados. O pé de abacate continuava de pé, e está até hoje. E veio o aviso do pai: nunca mais façam isso, porque as raízes da mangueira são superficiais.
É exatamente o que Paulo diz. Não importa se por fora se é frondoso, enorme e belo: se a raiz é rasa, o vendaval arranca.
E vem o diagnóstico: vivemos num tempo em que cristãos são analfabetos de Bíblia — inclusive quem frequenta a igreja desde criança. Sem raiz, qualquer doutrina engana.
As vãs filosofias do nosso tempo
“Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo.”
Na Reforma, a filosofia a ser enfrentada era, por exemplo, a das indulgências — comprar salvação. E vale notar: os reformadores não combateram gente de fora da igreja, e sim de dentro, com argumento, estudo e escrita.
A pregação aponta duas do nosso tempo, que caminham juntas.
**A autossuficiência.** Você se basta, você sozinho consegue, ame a si mesmo sem se importar com o que os outros pensam, o centro das suas decisões é você. Olhe para dentro e ali estará a cura.
Ela faz uma ressalva honesta: dizer a alguém “cuide de você, cuide da sua saúde” não é o problema. O problema é quando isso vira o eixo e Cristo sai do centro — aí eu me torno o meu próprio deus, e não vivo mais “somente em Cristo”, e sim “somente eu”.
E a consequência é concreta: já não somos ensinados a olhar para a cruz, porque cruz significa sacrifício, sofrimento e abnegação — palavras que ninguém quer no vocabulário. A fé passa a ser usada para satisfazer desejos, em vez de exigir que se carregue algo.
**A ideia de que o ser humano é bom por natureza.** Há linhas que tratam a pessoa partindo do princípio de que ela nasce boa e o meio a corrompe, de modo que basta recuperar essa bondade original. Quem prega faz uma ressalva explícita — a terapia pode ajudar, e ela se dispõe a conversar com quem discorde — mas aponta o problema: de novo a pessoa é remetida a si mesma, e a Bíblia diz que a capacidade de bondade não está em nós.
O estrago prático
A pregação mostra onde isso aparece, e é desconfortável.
**Servir virou raro.** Ficamos impressionados quando alguém serve com amor, sem esperar nada, sem buscar elogio ou aparecer. Não deveria impressionar — deveria ser o normal.
**A igreja tratada como comércio.** No comércio existe “quem manda é o cliente”, e vendedores são treinados para agradar de modo que a pessoa volte. Essa lógica é do capitalismo, não do Evangelho. Numa igreja ninguém precisa ser agradado para voltar. Mas o que muitos esperam é que ela agrade, satisfaça e realize vontades.
**Filhos criados para satisfazer os pais.** “Meu filho vai conquistar o que eu desejo, vai ser como eu almejo.” Quem está no centro aí? A pregação diz que é preciso ter gente que nos ame o suficiente para dizer: seu filho não foi criado para te satisfazer.
O que o texto afirma sobre Cristo
“Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e por estarem nele, que é o cabeça de todo poder e autoridade, vocês receberam a plenitude.” Essa plenitude não vem de nós — mas passa a agir em nós e por meio de nós.
Depois vêm a circuncisão e o batismo. No Antigo Testamento, a marca física de pertencer ao povo de Deus era a circuncisão, só para homens. A partir do Novo, essa marca é substituída pelo batismo — que inclui as mulheres.
E o batismo não se vive apenas no dia dele. Vive-se todos os dias: afogando o velho homem e renascendo justificado, arrependendo-se e entregando de novo a vida.
Por fim: “ele nos perdoou todas as transgressões e cancelou a escrita de dívida que nos era contrária; removeu-a, pregando-a na cruz. E, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz”.
A cruz redefine o que é vitória
Aqui está o ponto mais contraintuitivo. O conceito de vitória, no mundo daquele tempo e no nosso, passa por terminar a batalha vivo, subir ao trono, dominar.
O conceito bíblico é outro: sofrimento, entrega, morte. A autoridade de Jesus vem de se doar e morrer por aqueles a quem ama.
Por isso não se deve esperar que ser cristão signifique uma vida de prosperidade, riqueza e felicidade terrena. Ser cristão é viver uma fé que serve, que se rende, que se humilha para amar, que quebra o orgulho para perdoar, que abre mão de riquezas pelo Reino e que deixa as próprias vontades de lado para atender ao próximo.
E isso é bem prático: abrir mão de trabalhar sessenta horas semanais para servir; abrir mão de um salário maior para estar com a família; abrir mão do melhor eletrodoméstico para ajudar quem não tem fogão.
Não se trata de tristeza
A pregação antecipa a objeção: então a fé é só sofrimento?
Não. Quando Cristo entra e vai mexendo, há prazer e alegria enormes em servir — coisa que não dá para explicar, só vivendo para entender. Quem prega dá o próprio exemplo, do cansaço físico depois de um acampamento com as crianças que não se compara à alegria de vê-las felizes.
E fecha com Gálatas 2.20: “fui crucificado com Cristo; assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”.
Não é para que a minha vontade seja feita. É para que o Reino seja anunciado.