Janeiro é mês de recomeço — atividades, compromissos, planos, trabalho, aulas. E a série do mês acompanha os recomeços de Noemi e de Rute, que não foram nada simples.
Noemi perdeu o marido e depois os dois filhos. Sem meio de se sustentar, mandou as noras voltarem para suas famílias. Órfa voltou; Rute ficou. E Rute era moabita, estrangeira, não pertencia ao povo de Deus — mesmo assim disse: “o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.
Recomeçar dá medo em quase todo mundo
A pregação faz a ponte com a nossa experiência. Quantas vezes você já precisou recomeçar num lugar novo, num trabalho novo, numa escola nova? Recomeçar um relacionamento — às vezes com a mesma pessoa, porque estava precisando de renovo? Recomeçar depois de uma perda, sem alguém que estava ao seu lado e não está mais?
E cada um reage diferente: uns ficam ansiosos e angustiados, outros encaram como aventura. Quem prega admite que sair de um país para outro, como Rute fez ao deixar Moabe, lhe daria medo.
O trabalho de Rute
Chegando a Belém, Rute passou a sair de madrugada para catar nas lavouras o que os ceifeiros deixavam para trás — as sobras que não valiam a pena recolher. Ficava nisso até de noite, para sustentar a si mesma e à sogra. Noemi tinha medo de que algo lhe acontecesse: era jovem, e estava sozinha no campo.
Boaz percebeu o esforço dela e mandou que os ceifeiros deixassem mais grãos para trás de propósito, para que ela colhesse melhor. O texto registra que ele ficou surpreso com o tanto que ela trabalhava.
O plano de Noemi
No capítulo 3, Noemi orienta: lave-se, perfume-se, vista sua melhor roupa, desça até a eira, veja onde ele se deita, descubra os pés dele e deite-se.
Lendo hoje, aquilo soa como artimanha — as duas parecem atrevidas, quase de mau caráter. A pregação desfaz a impressão explicando os costumes.
Trocar as roupas de luto de viúva pela melhor roupa era comunicar publicamente que ela estava pronta para casar de novo. Deitar-se aos pés dele era colocar-se à disposição. E dizer “estende a tua capa sobre a tua serva” era, literalmente, um pedido de casamento.
Isso porque Boaz era um **resgatador**. Em Israel, quando morriam os homens de uma família sem deixar filhos, era obrigação do parente mais próximo casar-se com a viúva e constituir família com ela, para que o nome, as posses e a herança daquela família continuassem. Ninguém tinha feito isso por Noemi e Rute até então. O plano não era manipulação: era lembrar Boaz do dever que já era dele.
E ele responde à altura. Reconhece que ela poderia ter procurado alguém mais jovem, rico ou pobre. Não age às escondidas: avisa que existe um parente mais próximo, com direito e dever antes dele, e que levará a questão a ele primeiro. E não se deita com Rute naquela noite — o texto não diz isso.
Vale notar que a mesma palavra usada para chamar Rute de virtuosa é usada para Boaz. Os dois têm essa característica em comum.
O jeitinho e a virtude
É daí que sai a parte mais incômoda da pregação, e ela mira em casa.
Diante das dificuldades, o costume por aqui é dar um jeitinho: esconder uma coisinha, mudar outra, resolver na maciota, agir por debaixo dos panos, manipular a situação — e depois contar isso com orgulho, se gabando de ter conseguido, mesmo que todo o processo tenha sido errado.
O jeitinho é exatamente o oposto do que Boaz e Rute fazem. Dar um jeitinho, diz a pregação sem rodeios, é ser corrupto, é agir sem integridade. E cristãos fazem isso com muita naturalidade.
Se ser cristão é ser um pequeno Cristo, parecido com o Mestre, e se Deus é fiel e verdadeiro por essência, então esse caráter precisa aparecer no que fazemos e no que falamos.
A lealdade
No capítulo 4, Boaz casa-se com Rute e nasce Obede. As mulheres dizem a Noemi que a nora “é melhor do que sete filhos” — ou seja, cuidou dela melhor do que sete filhos cuidariam.
A pregação distingue lealdade de fidelidade, e coloca a lealdade acima: leal é quem não abandona, quem permanece nos momentos mais difíceis, sem ficar questionando o compromisso. Rute não escolheu o caminho mais fácil e fez sacrifícios reais.
E vem a pergunta: temos sido leais às pessoas a quem prometemos lealdade, e a Deus e à missão dele — inclusive quando está difícil e parece não haver mais força? Muitas vezes dizemos “Senhor, eu sou teu”, mas quando ele envia, respondemos que é difícil demais; quando convoca, dizemos que temos outro compromisso.
A redenção
O terceiro aspecto, e o mais importante. Esta é a história de duas mulheres que perderam a esperança e a perspectiva de vida, e que foram resgatadas de um jeito que não imaginavam.
É isso que Jesus faz: nos resgata da tristeza, da desesperança, do sofrimento e da situação de pecado. Ele é o nosso resgatador, e o preço desse resgate foi a própria vida dele.
Por isso o livro termina com uma genealogia. Obede foi pai de Jessé, que foi pai de Davi — e dessa linhagem veio o Messias. Uma mulher estrangeira, que poderia ter ficado na própria terra e de quem talvez nunca tivéssemos ouvido falar, entra na genealogia de Jesus Cristo por causa da sua lealdade.
As três perguntas
Somos homens e mulheres virtuosos diante de Deus — a Bíblia nos descreveria assim? Vivemos buscando fazer o que é certo, sem dar jeitinho? Temos sido leais a Deus e às pessoas que ele colocou ao nosso lado?
E o que é viver como pessoa redimida? É viver com esperança e alegria, sabendo que haverá vários recomeços e vários tombos no caminho, e que Jesus levanta — porque aquilo que nos sustenta por inteiro não está aqui, e sim na salvação em Cristo.