Última mensagem da série de março sobre pastoreio. Já se viu que Deus é o pastor que cuida da alma (Salmo 23), que Jesus é o bom pastor que conhece o rebanho e dá a vida por ele, e que é ele quem busca a ovelha perdida. Agora o texto é João 21.15-17.
A pergunta que abre é direta: você já pensou em desistir do chamado de Jesus? Está desistindo?
O que Pedro estava fazendo ali
A conversa acontece umas três ou quatro semanas depois da ressurreição, já na Galileia. E o que parece uma pescaria comum é, no fundo, uma desistência.
Pedro era pescador de profissão — tinha uma sociedade com o irmão André e com os filhos de Zebedeu. Dois ou três anos antes, depois de uma noite inteira sem pegar nada e da pesca milagrosa que quase afundou os barcos, Jesus lhe dissera: “não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens”.
Agora ele volta à velha profissão. E, de novo, não pegam nada.
O motivo está na noite da prisão. Pedro, que garantira que todos poderiam abandonar Jesus menos ele, negou-o três vezes antes do canto do galo. Quando Jesus olhou para ele, caiu a ficha, e ele saiu chorando amargamente. Semanas depois, ainda se sentia a pior pessoa do mundo.
Como Jesus faz a abordagem
É nesse ponto que a pregação pede atenção — porque o método de Jesus serve de modelo para lidarmos uns com os outros.
**Ele chama para uma conversa a sós.** Os outros discípulos estavam perto, mas longe o bastante para não ouvir.
**Ele não teve pressa.** Já havia aparecido aos discípulos pelo menos duas vezes com Pedro presente, e não tocou no assunto — porque estavam todos juntos. Esperou o momento em que a conversa pudesse ser particular.
**Ele não chama o discípulo de Pedro.** Chama de “Simão, filho de João”. Pedro era o apelido que Jesus lhe dera, e significa rocha — e naquele momento ele não estava nada parecido com uma pedra.
**Ele não expõe a falha.** Não pergunta por que foi abandonado na hora pior, não cobra, não humilha. O erro já estava claro para Pedro; não era preciso esfregá-lo.
**Mas toca na ferida certa.** A pergunta é “você me ama mais do que estes?” — exatamente a mania que derrubou Pedro, a de se achar um crente melhor que os outros.
Duas palavras diferentes
Aqui há um detalhe que se perde na tradução. Quando Jesus pergunta, usa o verbo do amor que se entrega — ágape. Quando Pedro responde, usa outro, mais próximo de “gostar” — fileo.
Ou seja, Pedro faz duas coisas de uma vez. Larga a pretensão de amar mais que os outros — não repete a comparação. E reconhece que o amor que tem não está no mesmo nível do amor de Jesus, que foi à morte espontaneamente. Quando chegou a hora, ele teve medo de morrer.
Três perguntas para três negações
Jesus pergunta uma segunda e uma terceira vez, agora sem o “mais do que estes”. Não é dúvida sobre o amor de Pedro — Jesus sabe todas as coisas. É restauração: três vezes ele negou conhecer Jesus, três vezes é levado a dizer que o ama.
E doeu. O texto registra que Pedro ficou magoado na terceira vez. A correção foi amorosa, mas foi correção.
O perdão vem em forma de tarefa
Repare que Jesus não diz “você está perdoado”. Ele diz “cuida dos meus cordeiros”, “pastoreia as minhas ovelhas”, “cuida das minhas ovelhas”. É assim que o perdão é declarado: devolvendo o chamado.
Cordeiros são as ovelhas mais novas — quem está começando na fé — e sem pastoreio não sobrevivem. Pastorear não é cargo: é empenhar a alma em favor das ovelhas, como Jesus ensinou em João 10.
E a melhor maneira de comprovar que se ama a Jesus é trabalhar para ele, fazendo o que ele pede onde há necessidade.
A única qualificação exigida
A pregação fecha com uma pergunta que desarma qualquer desculpa. O que Jesus exigiu de Pedro? Faculdade de teologia? Não. Muito conhecimento? Não. Dez anos ou mais de caminhada? Não.
Ele exigiu apenas que o amasse. Sem amor não é possível pastorear ninguém.
Não é só o pastor ou a pastora da comunidade que é chamado a cuidar do rebanho — a liderança coordena, mas o chamado é de todos os discípulos. E, além dos cordeiros que já estão no aprisco, há muitas ovelhas perdidas ao redor, gente que ainda não teve um encontro vivo com Jesus.
Quem prega acrescenta uma nota pessoal: mesmo aposentado há doze anos, não se sente dispensado, porque há cordeiros demais a serem cuidados.
Se você desanimou, se algo deu errado no trabalho da igreja, se pensou em largar tudo — a mensagem é esta: Pedro desistiu do chamado, mas Jesus não desistiu de Pedro.