Pregações

Lava-pés

Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

A pregação abre com uma pergunta à igreja: se você tivesse certeza de que lhe restam poucas horas de vida, o que faria? É exatamente a situação de Jesus em João 13.1-17.

Dias antes houvera a entrada triunfal, com a multidão reconhecendo nele o rei que os libertaria do domínio romano. Ninguém ali imaginava o que aconteceria na sexta-feira. Jesus, sim.

O que Jesus sabia e os discípulos não

Ele sabia que morreria no dia seguinte. Sabia que Judas o trairia. Sabia que Pedro o negaria — nem Pedro sabia. Sabia que todos fugiriam, enquanto eles tinham a convicção de que morreriam com ele.

Ou seja: naquela sala havia um traidor, um negador e um bando de fujões. Gente que ninguém escolheria para ter por perto.

E havia mais. O versículo 3 diz que “o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder”. Toda a criação, os discípulos, os fariseus, os romanos — tudo estava sob a mão de Jesus naquele momento. Inclusive o próprio inimigo que agia em Judas.

Alguém com autoridade sobre todas as coisas, que sabe que morrerá amanhã e que será traído, negado e abandonado. O que se esperaria de uma situação dessas?

A medida do amor

O versículo 1 termina com a frase que sustenta tudo: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”.

A pregação propõe medir esse amor por dois fatores. O primeiro é o tamanho do sacrifício — e não há maior. O segundo é o quanto quem recebe merece — e aqui a resposta é nenhuma. A Bíblia não passa pano para quem somos: não somos limpos, somos sujos; não somos santos, somos pecadores. Os discípulos são a nossa representação naquela cena.

Que pés eram aqueles

Não eram pés como os nossos, que chegariam de sapato e meia limpa. Aquela gente andava a pé, de sandália de couro, por ruas com esterco de animal. Eram pés grossos, com calo, e não eram cheirosos.

E lavar pés não era tarefa de qualquer escravo — era do mais baixo deles, por ser humilhante. Imagine o prefeito da cidade ajoelhado lavando o pé de alguém, e ainda assim isso é infinitamente menos do que Jesus fazendo o mesmo.

Duas coisas simbolizadas ali

A primeira é o serviço ao próximo. Jesus deixa o exemplo explícito: “se eu, sendo Senhor e mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros”.

A segunda é a base da primeira: o serviço que o próprio Jesus faria na cruz, tomando sobre si a nossa impureza, o nosso mau cheiro, a nossa humilhação. O serviço da cruz só Jesus pode fazer; o serviço ao outro nós é que somos chamados a fazer — e só conseguimos porque fomos servidos primeiro.

Filipenses 2 diz a mesma coisa: “seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que… esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo… e foi obediente até a morte, e morte de cruz”.

Ele nos amou, podemos amar. Ele nos perdoou, podemos perdoar. Ele nos serviu, podemos servir. E não apenas quem é fácil de amar — lembre quem estava naquela sala.

O que serviço não é

Aqui a pregação fica desconfortável de propósito. Servir ao próximo não é dar esmola nem entregar marmita. Se a igreja apenas distribui comida esporadicamente sem se envolver, não está servindo — está contribuindo para que as pessoas continuem exatamente onde estão.

E por que é fácil fazer isso? Porque esse tipo de obra não exige envolvimento pessoal: entrega-se e vai embora. Lavar os pés é sentir o cheiro. Lavar os pés é conviver com os defeitos.

Como contraexemplo, a pregação cita uma casa de acolhimento em Curitiba onde moradores de rua tomam banho, comem, estudam a Bíblia, conversam sobre a vida e são encaminhados — o que só funciona porque há pessoas dispondo do próprio tempo para estar ali. E não idealiza: quem já fez esse trabalho sabe que é cansativo, que se volta para casa com a sensação de domingo perdido, e que muita gente continua igual.

Na comunidade acontece o mesmo em escala menor. Serve-se o irmão, e se ele não agradece do jeito esperado, ou não muda como se queria, para-se de servir. Condiciona-se o serviço ao retorno. Mas qual foi o retorno que os discípulos deram a Jesus, senão traição, negação e abandono?

A objeção de Pedro

“Senhor, vais lavar os meus pés?” E a resposta: “se eu não os lavar, você não terá parte comigo”. Ou seja: se você não deixar que eu te sirva, você não é meu discípulo.

Talvez Pedro imaginasse que, sendo Jesus importante, ele também seria; ou que não precisava ser limpo daquele jeito. Quando Jesus diz “quem já se banhou precisa apenas lavar os pés”, não é porque os discípulos já estivessem limpos — é porque ele tinha plena convicção de que cumpriria a obra da cruz. Falava do futuro como coisa já feita.

Duas teologias que esse gesto derruba

A parte mais frontal da pregação. O lava-pés desmonta duas teologias muito difundidas — e em ambas o problema é o mesmo: colocam o ser humano no centro.

**A teologia da prosperidade.** Ela ensina que Jesus existe para te dar coisas: cura, ganho, vitória, prosperidade. Destaca palavras que na Bíblia são secundárias e coloca você no centro da história. A pregação a classifica como mentira, e o argumento é o próprio texto: todo o poder estava sob a mão de Jesus, e ele não usou nada disso em benefício próprio. Ter todo o poder ali significava ter a decisão de ir ou não à cruz — e ele foi.

**A teologia do coaching.** Derivada da primeira, mas onde a bênção prometida é emocional em vez de financeira. Deus passa a ser grande na medida em que arrepia, emociona, faz chorar; o culto é avaliado pelo que fez a pessoa sentir. A crítica alcança também boa parte da música gospel, descrita como produzida em fórmula — palavras que fazem cócegas no ego, linhas melódicas calculadas para emocionar, mantras repetitivos. De novo, é você no centro; de novo, é você quem tem que ser servido.

A pregação também se volta contra o conselho fácil que circula em vídeo curto: se alguém te machucou, corta essa pessoa, Deus tem coisa melhor. Jesus faz o oposto — pede um passo de maturidade: é difícil, insista; é difícil conviver com essa pessoa, é justamente ela que você vai servir.

As perguntas que sobram

Você está disposto a sentir o fedor do outro? A continuar amando quando ele não corresponde ao que você espera, e quando os defeitos dele começam a aparecer?

Você está disposto a ter prejuízo pelo outro? A pregação dá um exemplo cotidiano: o cristão que quer sair do emprego mas não quer perder direitos, e então começa a fazer o trabalho mal feito até ser demitido — deixando de servir o próximo para não aceitar prejuízo, e ainda achando que se deu bem porque foi abençoado.

Você está disposto a perdoar mesmo que a outra pessoa não tenha se arrependido — como Jesus perdoou antes que aceitássemos esse perdão, quando ainda éramos seus inimigos? Está disposto a pedir perdão?

Se você espera que a igreja te sirva, está aqui pelo motivo errado. Estamos reunidos como corpo para servir aos outros.