Segunda pregação da série de janeiro. Depois de “Começando leve”, o tema agora é começar de forma sábia — num mundo em que todo mundo se acha entendido de tudo e é quase impossível não ter opinião sobre qualquer assunto. O ponto de partida é simples: toda sabedoria disponível por aí é sabedoria humana, e o ser humano é falho e pequeno diante de Deus.
O texto é 1 Coríntios 1.18-25: “certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós que estamos sendo salvos, ela é o poder de Deus”.
Por que a cruz continua parecendo loucura
Para quem ainda não foi alcançado pela graça, a mensagem da cruz não fecha a conta. Tempo na igreja parece tempo perdido — tempo que poderia estar rendendo dinheiro. É mais fácil olhar para a igreja e concluir que é um bando de gente fora de si do que encarar o que crer implica: negar a si mesmo, tomar a própria cruz, buscar a Deus todos os dias.
A pregação faz aqui uma provocação incômoda. Desde que o cristianismo começou, há quem se esforce para provar que Deus não existe — com argumentos, números, teorias. E existe ateu que estuda mais a Bíblia do que muito cristão. Enquanto o mundo se dedica a atacar, boa parte da igreja está “brincando de ser crente”.
Do outro lado, há o que a criação mostra. Um universo em que nem uma molécula de água é simples não se explica por acaso, e gerações de discípulos e mártires não morreram por uma mentira.
Onde está o sábio?
Paulo cita Isaías 29.14 — “destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes” —, palavra dada a um povo que se achava esperto enquanto voltava à idolatria, e que acabou levado pela Babilônia.
Depois vêm as três perguntas: onde está o sábio, o escriba, o questionador deste mundo? O sábio eram os filósofos, que o povo ia ouvir nas praças da Grécia. O escriba era a referência judaica de quem conhecia a Lei inteira. O questionador era quem vivia nos palácios formulando perguntas para as quais muitas vezes não tinha resposta. Os coríntios admiravam quem falava bonito — e o que buscavam ali era um estilo de vida que preenchesse um vazio.
A aplicação é direta: muitas vezes se confia mais na própria força e no próprio saber do que em Deus. Acha-se que já se entende o bastante para não ler a Bíblia, que já se sabe o que é um PG e por isso não precisa ir, que não é necessário devocional nem oração. Isso é confiar no que é fraco e passageiro.
A loucura da pregação
“Visto que na sabedoria de Deus o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação.” Pela sabedoria humana ninguém chegou a Deus — tentaram até construir uma torre, e as línguas foram confundidas. Pela sabedoria humana também ninguém inventou como tirar o pecado de dentro de si.
Deus escolheu esse caminho justamente para que ninguém se glorie de ter conquistado a própria salvação.
O que temos buscado
“Os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria.” A pergunta é devolvida à comunidade: o que temos buscado quando vimos ao culto, ao PG, ao grupo de oração?
Se for experiência — o arrepio no louvor, a emoção, o choro — vale lembrar que experiência fortalece a fé, mas fé que depende dela desaba no domingo em que nada se sente. Se for sabedoria agradável — palavra de prosperidade, promessa de que nada dará errado — o confronto com o próprio pecado afasta. E se for apenas religiosidade — vir todo domingo por hábito, sem abrir a Bíblia, sem orar, mas postando um versículo no status todo dia — então virou rotina, não relacionamento.
Uma cruz que não dói mais
A cruz era escândalo para judeus e loucura para gregos, e é fácil se achar melhor que eles. Mas a pregação pergunta o que é pior: ver a cruz como escândalo, ou vê-la como enfeite — um pingente no pescoço, uma tatuagem no braço — que já não desperta nada?
Pecar, dizer “Deus, me perdoa” e seguir como se nada tivesse custado é tratar como graça barata o que foi tortura, morte e três dias no sepulcro. A pergunta pessoal fica: quantas vezes nesta semana você pensou em Jesus, ou agradeceu por estar vivo, ou por saber onde vai acordar?
Que sejamos loucos
“Para os que foram chamados, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus, porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana.”
A conclusão é um convite meio provocador: se o mundo já acha loucura ler a Bíblia todo dia, priorizar o culto no domingo, orar a um Deus que não se vê e jejuar, então que 2026 seja o ano de ser o mais louco possível aos olhos do mundo. Deus chama todos a anunciar o evangelho — não só quem está à frente.
A frase que encerra resume a escolha: é melhor ser louco para o mundo do que ser louco para Deus. E ela vem com Lucas 12.20, onde é o próprio Deus quem chama alguém de louco: “esta noite pedirão a sua alma; e o que você preparou, para quem será?”