Pregações

Cartas para nós: assinado, Eu Sou

Pregada por Daline Moeller · Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

A série começa com uma pergunta feita à igreja em voz alta: biblicamente falando, quem Jesus diz que é? E vêm as respostas — o caminho, a luz do mundo, a verdade, a vida, o pão da vida, a porta, o bom pastor, a ressurreição, a videira verdadeira, o Cordeiro de Deus, o Alfa e o Ômega, o advogado, a fonte da água viva.

Todas começam do mesmo jeito: **eu sou**.

Um nome que não cabe em palavra

Essa expressão aparece pela primeira vez em Êxodo 3, quando Moisés pergunta o nome de Deus e ouve: “EU SOU”.

No hebraico, aquilo é complexo de propósito. Pode ser traduzido em todos os tempos — eu sou, eu era, eu fui, eu serei. O que Deus está dizendo é que não existe adjetivo, característica ou nome capaz de transmitir a criaturas tudo o que ele é. Não dá para colocá-lo numa caixinha.

E é por isso que Jesus usa tantos complementos. Em João 8.28 ele diz: “quando levantarem o Filho do homem, então conhecerão que eu sou, e que nada faço por mim mesmo”. Ao falar assim, está afirmando ser aquele mesmo Deus que se apresentou a Moisés no deserto.

A pregação observa por que temos tanta dificuldade com isso. A pergunta “quem criou Deus?” só existe porque nós somos criados — para nós não há como existir algo que não tenha sido feito. Nossa mente, nossos sentimentos e nossas palavras são limitados.

Por que Apocalipse está cheio de “era como”

Esta é a chave de leitura mais bonita da mensagem, e vem por uma via inesperada.

Quem prega desafia a igreja: alguém aqui conhece a fruta araçá-boi? Quase ninguém. Então tenta descrevê-la — mais ou menos do tamanho de um caqui, mas mais amarela; a casca é **como** a do pêssego, meio aveludada; por dentro é mole, **como** um pêssego bem maduro; as sementes lembram as da mexerica, mas mais redondas; o pé se parece **com** o da acerola; o gosto é semelhante ao do cupuaçu, mais leitoso.

Repare no que ela precisou fazer: encadear comparações, porque não dá para explicar a alguém um sabor que essa pessoa nunca provou.

É exatamente o que acontece com João. Ele viu algo para o qual não existiam palavras, e por isso o livro é uma sucessão de “era como”. Não é linguagem enigmática por gosto — é alguém tentando descrever o que não cabe na língua.

Um livro de esperança, não de terror

Muita gente lê Apocalipse com medo e angústia, imaginando o que vai acontecer. A pregação cita até um caso ouvido na faculdade: um ex-usuário de drogas contou que liam Apocalipse justamente para ficar mais alucinados, por causa das imagens.

Mas o terceiro versículo diz o contrário: “feliz aquele que lê as palavras desta profecia, e felizes aqueles que ouvem e guardam o que nela está escrito”. É uma bem-aventurança.

E o contexto explica. As igrejas que recebem essas cartas estavam sob perseguição, e o próprio João escreve preso na ilha de Patmos por causa do evangelho. O que ele diz a elas é: perseverem, porque a esperança de vocês não está nesta vida nem no que vão viver neste mundo.

Aos que estavam sendo mortos por causa da fé, a mensagem é que Jesus conhece cada um e que haverá juízo. E às igrejas em risco de se desviar, é chamado ao arrependimento e segunda chance — “voltem, guardem o que está de pé, afastem o que é mal, porque eu virei em breve”.

Graça e paz — e como a gente as limita

João abre saudando: “graça e paz da parte daquele que é, que era e que há de vir”. E isso mesmo às igrejas para as quais teria palavras muito duras adiante.

Daí sai a parte mais pastoral da mensagem. Toda vez que achamos que existe um pecado, um erro ou uma falha que não pode ser redimido pelo sangue de Jesus, estamos dizendo que **a graça dele não basta**. Toda vez que alguém pensa “não vou orar porque Deus não vai me ouvir” ou “não vou ao culto porque já não ouço mais a Deus”, é a mesma coisa.

A graça é suficiente para qualquer pecado. E o fato de ele ser “aquele que é, que era e que há de vir” significa justamente isso: ele já existia antes de nós, e o que fazemos não muda quem ele é nem limita o que ele pode.

O escravo que ficou por perto

Para explicar o que é ser livre em Cristo, a pregação conta uma história do tempo da escravidão.

Um homem livre vê um escravo à venda, paga o preço, tira-o dali e o leva por uma estrada. A certa altura diz: eu te comprei para que você fosse livre; siga o seu caminho. E segue andando. Mais adiante olha para trás e o homem continua ali, atrás dele.

“Você não precisa mais me seguir, você é livre.” E ouve a resposta: se eu me afastar de quem me libertou, outros virão e me prenderão de novo. Só sou livre perto de quem pagou o preço por mim.

É assim com Jesus: somos livres enquanto caminhamos com ele.

O véu rasgado de cima para baixo

“Ele nos ama e nos libertou dos nossos pecados por meio do seu sangue, e nos constituiu reino e sacerdotes para servir a seu Deus e Pai.”

A pregação chama a atenção para a direção em que o véu do templo se rasgou quando Jesus morreu: **de cima para baixo**. De baixo para cima poderia ter sido obra humana.

O que isso significa: já não há Santo dos Santos, já não há lugar mais santo e lugar menos santo. Todo aquele que crê é sacerdote — tem ligação direta com Deus por meio de Cristo, sem precisar que alguém interceda por ele.

E há uma observação sobre como Jesus é visto por quem não o conhece de perto: como alguém que só quer mandar, controlar e dar ordens; seguir a ele parece prisão, uma lista de coisas que não se pode. Para quem entregou a vida, é o contrário — foi ele quem abriu portas que a pessoa não tinha força para abrir.

A visão e as sete igrejas

Na segunda parte do capítulo, João vê alguém semelhante a um filho de homem, com cabelos brancos como a lã, olhos como chama de fogo, pés como bronze em fornalha, voz como o som de muitas águas, e uma espada afiada de dois gumes saindo da boca. Ele cai como morto — e ouve: “não tenha medo; eu sou o primeiro e o último… estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre”.

O número sete aparece dezenas de vezes no livro e representa plenitude e perfeição. É por isso, aliás, que o número da besta é 666: nunca chega a sete, nunca é perfeito, nunca é como Deus.

E daí vem a consequência que dá título à série: se sete é plenitude, então **as sete igrejas representam todas as igrejas**, em qualquer tempo. Aquelas cartas também são para nós — e nos encaixamos numa delas, em duas, ou em todas.

O que aqueles olhos fazem

O fecho junta as três imagens da visão. Os olhos como chama de fogo penetram o nosso íntimo e iluminam a escuridão que há ali — ele sabe tudo o que escondemos e trancamos. Da boca saem palavras com autoridade de espada, que nos fazem entender que somos pecadores e precisamos da graça dele.

E então vem a mão direita, que toca e traz paz — e faz levantar perdoado, redimido, reconciliado.