O culto começou com uma pergunta: qual é a sua motivação para estar aqui? E a pregação a afia antes de abrir o texto.
Quando alguém chega e pergunta “você vai à igreja hoje?”, ou manda no grupo “você vai no culto?”, **qual é a reação dentro de você?** Não a resposta que você dá — a que você gostaria de dar. O que vem primeiro no peito.
A resposta natural deveria ser óbvia: *claro que vou, eu sou parte*. Tão óbvia quanto beber água ou se alimentar. Se não é, há algo a ser encarado — e a pregação lista as perguntas para fazer a si mesmo: estou distante de Deus? Tenho mágoas antigas por curar? Estou olhando mais para os outros membros do que para Cristo?
**“A gente não precisa arranjar desculpa para si mesmo. Nem para Deus — ele já conhece.”**
Tudo depende da primeira frase
O texto é Filipenses 2.1-8, e a pregação faz questão de mostrar de onde ele pende.
“**Se** por estarmos em Cristo temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no espírito…”
Tudo o que Paulo diz depois só vale por causa dessa abertura. Tire Cristo e você tira o amor, o servir, a unidade, o mesmo modo de pensar — nada daquilo se sustenta sozinho.
E quando ele não é o centro, a pregação descreve o resultado sem eufemismo: a nossa língua **fala demais, agride demais, machuca demais — e ao mesmo tempo se importa de menos**.
“Tendo o mesmo modo de pensar”
Aqui a pregação levanta a objeção antes que alguém levante: todo mundo pensando igual? Isso é conto de fadas. Não se consegue dentro de casa, com quatro ou cinco pessoas — quanto mais numa comunidade inteira.
Só que é mandamento, e não aparece só ali: está em 1 Coríntios 1.10 e em 1 Pedro 3.8.
A saída não é achatar ninguém. **Não é que o que eu quero vai coincidir com o que o outro quer — as nossas vontades diferem e sempre vão diferir. É que a vontade de Cristo é uma só, e é essa que a igreja segue.**
O exemplo
“Embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se, mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo… e foi obediente até à morte, e morte de cruz.”
Ele abriu mão de tudo o que ser Deus lhe dava — o conforto, o poder, a soberania — e desceu ao nosso nível. Virou carne, sentiu dor, serviu. E não fez isso pensando em si.
O lugar da cruz
Uma pausa concreta, sobre o objeto que estava ali na frente. A pregação usa uma cruz com frequência, e aquela em particular foi feita no acampamento de crianças do ano anterior: as marquinhas brancas nela são impressões digitais de quem estava naquele culto — gente e criança dizendo *eu pertenço, eu sou de Jesus*.
E o lugar dela, diz a pregação, **é o centro**. Não de lado.
É a lembrança de que não se olha para o pastor, nem para o ministério de música, nem para o datashow. E é a razão de a comunidade sentar virada para a frente, e não virada uns para os outros: para a atenção estar no altar — e não em observar e comentar o que o outro está fazendo.
Por que a gente insiste em olhar para pessoas? Porque é mais fácil. Jesus não é alguém caminhando fisicamente ao nosso lado, e ir à Bíblia dá trabalho. Só que o exemplo humano falha — e quando ele cai, cai junto quem estava se apoiando nele.
O que não é servir
Aqui está o coração da mensagem, e cada item foi encenado num teatro pelos próprios membros durante o culto.
**Não é servir** quando faço para me gabar.
**Não é servir** quando me acho mais importante que os outros.
**Não é servir** quando acho que tudo depende de mim — que se eu não fizer ninguém faz, que eu sou o centro daqui, que se eu sair o barco afunda.
**Não é servir** exibir o próprio sacrifício para que todos glorifiquem.
**E não é servir reclamar de quem não está servindo.** Esta ganha o maior espaço, e é descrita com precisão: é a pessoa que está ali por obrigação, porque alguém a convenceu de que precisava estar, e serve com raiva dos que não vieram. Aponta o dedo, comenta quem não chegou no horário, e vai amargurando o coração de quem está do lado.
**“Isso só mostra que, na verdade, ela também não queria estar ali.”**
**Não é servir** estar presente com a cabeça no resto — “estou aqui, mas já tenho que ir embora”, falando o tempo todo da vida corrida e de tudo o que falta fazer. E a pregação estende isso para dentro de casa: tirar um tempo para a família e passar esse tempo inteiro lembrando do que vem depois. **Cristo abriu mão da agenda inteira dele.**
**Não é servir** ir contra todo o restante do barco, porque isso gera divisão.
**E não é servir** só receber. Sentar e esperar ser servido — alguns porque já se cansaram de remar e dizem que não precisam mais, outros porque querem os benefícios mas não querem se sacrificar pelo barco.
“Considerem os outros superiores a vocês mesmos”
Com uma ressalva importante, porque esse versículo é mal usado com frequência: **não se trata de baixa autoestima nem de se fazer de vítima.** É o outro importar tanto que você se deixa de lado para cuidar dele — como pais fazem com filhos.
Quando alguém sai do barco
A parte mais pessoal. Para quem pastoreia, ver alguém abandonar a comunidade é descrito sem metáfora amena: é como levar uma facada.
E o argumento é: se Jesus te colocou aí, sair nunca foi uma opção. Mesmo que a pessoa saia, **o buraco fica**. Alguém sempre vai sentir a dor daquela cadeira vazia, e fica mais difícil remar. Pode passar o tempo que for — a marca fica.
A história da república
E então vem a história que explica por que ela pensa assim.
No primeiro ano da faculdade de teologia, moravam quatro numa república, cada uma de um temperamento. Ela dividia quarto com uma amiga de infância, e as duas brigavam e faziam as pazes toda semana — a ponto de a casa inteira ser afetada quando uma estava emburrada com a outra.
Havia uma quarta, de cultura bem diferente, que costumava mediar essas discussões. No meio do ano, essa quarta avisou que estava mudando de república.
Depois que ela saiu, a pregadora passou dois ou três meses sem falar com ela — **e não sabia por quê**. Sentia uma mágoa enorme, sem explicação, e não conseguia olhar nos olhos dela.
Até que, num intervalo da faculdade, a outra a chamou na capela e perguntou direto: a gente morou um ano inteiro junta, o que aconteceu que você não fala mais comigo? E ela respondeu que também não sabia.
Conversaram até entender. **O que ela sentiu foi que aquela pessoa tinha desistido dela.**
Porque era justamente essa a pessoa que mais a havia lapidado naquela casa — a que lhe disse que era grossa, que o jeito dela às vezes afetava outros tipos de pessoa, que precisava de mais calma nas palavras. “Deus me fez crescer nos atritos que eu tinha com ela.” Quando ela saiu, o que ficou no coração foi abandono — mesmo não tendo sido essa a intenção, e mesmo a saída não tendo nada a ver com ela.
Se reconciliaram.
E a conclusão é a régua que a pregação propõe para a comunidade inteira:
**Quando eu amo alguém de verdade, eu luto por essa pessoa. Não desisto de ajudá-la nos erros dela, não desisto de corrigi-la, não desisto de abraçá-la quando ela está mal. Se eu não amo, eu não me importo.**
E vem a assinatura honesta: é por isso que eu intervenho, é por isso que eu sou sincera — porque eu amo. Cristo não desistiu de nós nunca.
O que tem a ver com você
A lista mais concreta da noite, dirigida a quem foi apresentado como membro ali.
Uma luz que não está funcionando **diz respeito a você**. Um lixo no chão na porta da igreja diz respeito a você. Uma criança que não está conseguindo vir ao culto porque não há quem a traga diz respeito a você. Um membro que recebeu uma promoção e está feliz diz respeito a você — cabe ficar feliz com ele. O idoso sozinho em casa pensando que podia receber uma visita **diz respeito a você, não “à pastora”**. Alguém doente, alguém sem o que comer: é o corpo todo que sente, não só quem tem dom de misericórdia.
“O pastor não consegue visitar todos. O presbitério não consegue cuidar de tudo sozinho. **A liderança não é o corpo.**”
E a contribuição mensal entra como o exemplo mais direto de se sentir parte — a pregação é franca sobre o aperto financeiro que a comunidade vivia naquele momento, em meados de 2022, e sobre como isso abafava os planos. Se uma lâmpada queimou tem a ver contigo; se falta recurso para pagar a energia, também.
E o inverso vale igual: **se eu não estou bem, eu posso dizer a esse corpo que não estou bem.** Não preciso ficar calado, me isolar num canto e esperar que o resto venha atrás de mim.
Quem convence
Uma distinção que a pregação faz questão de deixar clara: quem convence do pecado não é o pastor nem outro membro. É o Espírito Santo.
“Se for de fora para dentro, é pressão. De dentro para fora, é obra de Deus.”
Com o parêntese honesto de que isso não isenta ninguém de ensinar, falar e exortar — esse é o papel. Mas convencer não é nosso. E a confissão que vem junto, com humor: a vontade de abrir a cabeça das pessoas e colocar a coisa lá dentro existe; Deus é que não deixa.
O piloto
“Não somos o centro desta igreja — ele é. Não estamos aqui para ser agradados e satisfeitos; estamos para amadurecer na fé e servir ao próximo.”
E como saber para onde remar? Bíblia, devocional constante, oração. Busque pessoas que caminhem com você — mas como apoio, não como exemplo. Exemplo é Cristo, porque ele é o único que não cai, não se desvia e não falha.
O fecho é uma admissão em público, e ela sustenta tudo o que veio antes: **“eu já pedi perdão aqui para várias pessoas da comunidade. Eu falho — e não tem problema nenhum dizer ‘me perdoa’. Isso não pode afetar a fé de vocês, porque a base da nossa fé não são os membros e não é a pastora: é Cristo.”**
O hino que fecha o culto pede para ser levado mais fundo na fé. E a pregação avisa o que isso significa na prática: ir mais fundo é ser provado, ser lapidado, ser mexido, ser moldado.