A pregação começa com uma nota sobre o próprio ofício. Quem sobe ali não está trazendo a palavra de si mesmo — está transmitindo a Palavra de Deus. Há noites em que ela é de ânimo e consolo; há outras em que é de desafio e exortação. E isso é responsabilidade de quem prega, não escolha.
Vem junto uma confissão. No começo da caminhada, sentado no banco ouvindo uma boa mensagem, ele pensava: por que fulano não veio hoje, isso ia servir para ele. Depois aprendeu que aquela palavra era para ele mesmo.
Pérgamo
O texto é Apocalipse 2.12-17. E para entender a carta é preciso conhecer a cidade.
Pérgamo era a mais importante da Ásia. Centro cultural, famosa pela biblioteca de duzentos mil pergaminhos — a segunda maior do mundo, superada apenas pela de Alexandria.
Era também um centro do paganismo. No alto da acrópole ficava o templo dedicado a Zeus, e dele subia todos os dias a fumaça dos sacrifícios. Havia o culto a Asclépio, o deus-serpente das curas, com uma escola de medicina famosa para onde peregrinavam doentes do mundo inteiro — misturando crendice e ciência.
E era o centro asiático do culto ao imperador: ali foi construído, no ano 29 a.C., o primeiro templo dedicado a um imperador vivo. Naquela cidade o imperador era mais evidente do que Jesus Cristo.
É por isso que Jesus diz “sei onde você vive, onde está o trono de Satanás”. Ali não se tratava apenas de habitar — era o trono.
O que eles acertaram
“Contudo, você permanece fiel ao meu nome e não renunciou à sua fé em mim, nem mesmo quando Antipas, minha fiel testemunha, foi morto nessa cidade.”
Não se sabe ao certo quem era Antipas — provavelmente um líder ou pastor daquela igreja, já que Jesus menciona seu nome. Ele foi morto por não negar a fé. A pregação cita relatos de historiadores segundo os quais teria sido executado dentro de um grande tacho de bronze.
E há um ponto que a pregação faz questão de sublinhar: eles poderiam ter ido embora. Esmirna não era longe. Mas ficaram — porque é onde Deus planta que a igreja precisa dar testemunho.
Para dimensionar o que era aquilo, a pregação lembra que naquela cidade era preciso dizer que o imperador era o senhor. Quem dissesse que o Senhor era Jesus, morria.
E traz um caso contemporâneo: o ataque a uma universidade em Garissa, no Quênia, em que homens armados foram de quarto em quarto perguntando quem era muçulmano e quem era cristão — e mataram 147 pessoas. Ainda hoje há países em que não negar a fé custa a vida. Aqui, o pior que costuma acontecer a quem prega numa praça é ser chamado de fanático.
O que Jesus tinha contra eles
Diferente de Éfeso, onde havia uma coisa só, aqui Jesus diz ter **algumas** coisas.
A primeira é a doutrina de Balaão. A pregação reconta a história de Números 22 em diante: o rei moabita, com medo do avanço de Israel, contrata o profeta para amaldiçoar aquele povo. Deus não permite — e vem a cena da jumenta que empaca três vezes, apanha, e por fim fala. Balaão estava tão cego pela proposta de riqueza que nem estranhou estar conversando com o animal.
Sem conseguir amaldiçoar, Balaão dá outro conselho ao rei: não os enfrente com armas. Infiltre mulheres no acampamento, e aos poucos eles se deixarão seduzir. Foi o que aconteceu — e daí vieram também os alimentos sacrificados a ídolos e o culto aos deuses pagãos.
A segunda é a dos nicolaítas, que ensinavam que se podia fazer tudo, porque a graça de Deus depois perdoaria.
Fiel numa coisa, falho em várias
Para explicar como alguém pode se dizer fiel e ainda assim estar errado, a pregação usa uma comparação incômoda.
Imagine um homem casado que é absolutamente fiel — dez mulheres podem aparecer e ele não trai. Pergunte a ele se é fiel e ele responde que sim, com orgulho. Só que de vez em quando ele bate na esposa. E a humilha na frente dos amigos.
Ele é fiel. E está profundamente errado.
Era mais ou menos isso em Pérgamo: nós somos fiéis a Deus, mas estamos cometendo umas outras coisinhas aí.
A pregação imagina o diálogo daquela igreja. Vocês adoram a quem? A Deus. Vão ao culto de Zeus? De jeito nenhum. Mas semana que vem tem uma festa dedicada à deusa — não é culto, é só festa, com muita comida e bebida. E aí vamos. E naquelas festas havia também prostituição. Foi assim, aos poucos.
O mundo entrando
Daí o título: é a igreja indo ao mundo, ou o mundo entrando na igreja?
E a pregação faz questão de definir de quem está falando: quando diz “igreja”, não é o prédio de quatro paredes. Jesus não estava advertindo um templo — estava advertindo as pessoas. Eu e você somos a igreja.
Como exemplo do quanto isso confunde quem está de fora, a pregação cita duas notícias que circularam. Uma sobre traficantes que se diziam evangélicos e expulsavam terreiros de morros cariocas. Outra sobre uma modelo apresentada como a primeira evangélica a posar nua para uma revista, justificando que profissão e religião são áreas diferentes — e o contraste com outra modelo que, depois de se converter, disse ter vergonha do que havia feito.
A cobrança que vem em seguida é sobre testemunho cotidiano: o que postamos, o que mostramos, o que quem está de fora vê. Não porque a Bíblia condene tudo — “tudo é lícito, mas nem tudo convém” —, mas porque quem está começando na fé e quem está fora esperam ver diferença.
Uma história pessoal sobre bebida
Quem prega conta que, quando jovem, era o encarregado de fazer a caipirinha nas festas da família. E que aquilo não parava na caipirinha. Chegou ao ponto de beber sozinho em casa depois do trabalho, todos os dias.
E conta que havia histórico de alcoolismo na família — alguém próximo que começou aos poucos, foi aumentando, tornou-se dependente e violento quando bebia, e cuja vida acabou destruída por isso.
A conclusão que ele tira é sobre si: se Deus não o tivesse resgatado, provavelmente teria seguido o mesmo caminho.
O maná e a pedra branca
“Portanto, arrependam-se; senão virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca… Ao vencedor darei do maná escondido; também lhe darei uma pedra branca com um novo nome nela inscrito, conhecido apenas por aquele que o recebe.”
Sobre a espada: no Império Romano ela era símbolo de justiça e condenação, e pesava. Na boca de Jesus ela também traz justiça — mas traz salvação junto. Ela tanto acusa quanto liberta.
O maná remete ao deserto, quando Deus supria diariamente o que o povo precisava — e o paralelo é que ele também alimenta espiritualmente todo dia.
A pedra branca tinha vários usos naquela região. Quem era absolvido num julgamento recebia uma pedra branca. O escravo que ganhava liberdade também recebia uma, com a inscrição que comprovava sua condição. E havia o costume da hospitalidade: uma família partia uma pedra branca ao meio e entregava metade ao visitante, dizendo que ele — ou alguém da família dele — seria bem recebido se voltasse trazendo aquela metade.
É tudo isso ao mesmo tempo: absolvição, liberdade e acolhida na casa dele.
O alimento precisa ser diário
O fecho é prático. Domingo vem-se ao culto e sai-se alimentado. E na segunda? E na quinta, quando se convida os amigos para o churrasco e a geladeira já está cheia?
A luta entre a carne e o espírito é constante, e quem vence é o que estiver melhor alimentado. Quem não se alimenta diariamente é candidato a ser derrotado com facilidade na hora do problema, da tentação ou do confronto.
E há um eco da mensagem da semana anterior: a brecha em Pérgamo já era tão grande que o mundo entrava por ela.