A pregação começa com três perguntas. Existe algo que você faz com amor no coração? Existe alguma habilidade que outras pessoas reconhecem em você, às vezes antes de você mesmo? E existe algo que te inquieta, que você olha e pensa “isso aqui precisa mudar”, mesmo quando ninguém à sua volta parece estar vendo?
Pode ser exatamente nessas áreas — inclusive na terceira, a da inquietação — que o Espírito Santo esteja chamando alguém para edificar a igreja.
Os dons aparecem servindo
A pregadora conta a própria história para ilustrar. Ainda adolescente, logo depois da confirmação, assumiu o ministério com crianças na comunidade de origem. Eram poucos jovens dividindo tudo: uma escrevia as histórias adaptando o texto bíblico para a linguagem das crianças, outro desenhava e pintava à mão cada cena porque não havia dinheiro para impressão, outro tinha o dom de cativar. Todo sábado, sem falta, chovendo ou não, das duas da tarde às seis, e depois ensaio de louvor, grupo de jovens, culto no domingo e planejamento na segunda.
Foi servindo ali que as pessoas começaram a chegar e perguntar se ela já tinha pensado em estudar teologia. Dos quatro daquele grupo, três seguiram no ministério e uma é esposa de pastor — todos continuam servindo a Deus. O ponto: os dons ficaram claros no fazer, não antes dele.
Sobre os testes de dons que a comunidade já aplicou: ajudam a conhecer, mas não adianta fazer o teste e não aplicar. É quando alguém se envolve, se dispõe e se entrega que entende qual é o seu dom.
Dom não é para quem o recebeu
1 Coríntios 12.1: “irmãos, quanto aos dons espirituais, não quero que vocês sejam ignorantes”. E 12.7: “a cada um é dada a manifestação do Espírito visando o bem comum”.
Dom não é mérito nem glória de ninguém: é dado porque a igreja, o Reino e a missão de Deus estão precisando daquilo. Viver o dom transforma quem o vive — exige enfrentar desafios, sacrificar tempo, energia e vontades —, mas o foco nunca é quem serve.
A pregação nomeia o obstáculo mais comum: o “eu”. Entrar na igreja perguntando se o culto vai me agradar, não cantar porque não gosto daquele louvor, não se envolver na programação porque não é do meu gosto. Isso é diferente de olhar para algo e perceber que não condiz com a Escritura — aí sim a inquietação tem a ver com Deus, e não com preferência pessoal.
A rotina que acomoda
Outro obstáculo é a rotina. O ano passa sem que se veja, a semana some entre compromissos, e a acomodação não é descansar — é não conseguir sair da rotina, não conseguir colocar em prática o que se entendeu na pregação de domingo.
Vem daí um lembrete duro e libertador ao mesmo tempo: quando Deus tem uma missão, ela vai ser realizada. A pergunta não é se acontecerá, mas se seremos parte dela ou meros espectadores — como indivíduos e como comunidade.
Êxodo 35: os que se dispuseram de coração
O texto é Êxodo 35.29-35, quando o povo, ainda no deserto, precisa construir o Tabernáculo. Vale notar a diferença entre os Testamentos: no Antigo, o Espírito era dado a pessoas específicas para missões específicas; no Novo, é dado a todo aquele que crê, para a edificação da igreja.
O texto repete uma expressão várias vezes: “todos os israelitas que se dispuseram”. Moisés dispensa o povo e diz que volte quem estiver disposto. Voltaram muitos — homens e mulheres —, mas não todos. E não voltaram de mãos vazias: trouxeram ofertas voluntárias, em quantidade suficiente para a obra.
Dispor-se ali significava largar o trabalho, o descanso, a família, para trabalhar no calor do deserto numa construção que beneficiaria todo o povo — inclusive quem não apareceu.
Daí uma lição prática: quem se dispõe não deve gastar energia reclamando de quem não veio. Isso desvia o foco das pessoas que Deus de fato colocou ali e esfria o coração de quem está presente. Moisés não olhou para os ausentes; escolheu entre os que se apresentaram.
Deus capacita quem se dispõe
“E o encheu do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e lapidar pedras e entalhar madeira.”
Repare no tipo de dom: trabalho manual, artesanato, bordado, tecelagem. Dons espirituais não se restringem a liderar ou pregar — estão em tudo que leva a igreja a cumprir a missão. Um lugar limpo e acolhedor, uma lâmpada trocada para que se possa ler as Escrituras, um banheiro em condições, o cuidado com a segurança das crianças nas salas. E também uma oração feita com amor por um irmão, um abraço que lembra o amor de Jesus, a oração feita em casa pela igreja e pela liderança.
O versículo 34 acrescenta algo fácil de passar batido: a esses homens foi dada também “a habilidade de ensinar a outros”. Eles não foram chamados só para fazer — foram chamados para ensinar os demais. E é maravilhoso ensinar alguém e vê-lo se tornar melhor do que nós, e poder sair de cena para que essa pessoa edifique a igreja.
Dar o melhor por fora e por dentro
Aquelas pessoas conseguiam executar qualquer trabalho não por milagre instantâneo, mas porque se dispuseram, se empenharam e foram capacitadas no caminho. Na maioria das vezes é assim que funciona: à medida que alguém busca e se entrega, é capacitado.
Dar o melhor tem duas faces. A externa é ir com garra, sem falhar, faça chuva ou faça sol. A interna é o coração disposto: ir com amor, com entrega, com verdade, orando — para a honra de Deus, e não para o próprio ego.
Uma crise e uma resposta
A pregadora fecha com uma história pessoal. Vinda de uma comunidade luterana muito tradicional, chegou à faculdade de teologia aos 18 anos e se deparou com uma pergunta que nunca lhe haviam feito: você tem certeza da sua salvação? Passou o primeiro ano inteiro em crise e em silêncio, achando que não podia afirmar isso porque falhava, errava, não merecia.
Levou aquilo a um pastor e disse, chorando, que não sabia se Jesus a receberia com um abraço ou diria que não a conhecia. A resposta foi que sim, haveria abraço — “justamente porque não tem a ver com o que você consegue fazer para Deus, mas com a fé que você tem. Isso é graça”.
Na mesma conversa ela confessou seu maior medo no ministério: não era pregar nem falar em público, era aconselhar e acompanhar pessoas de perto. E foi exatamente para isso que Deus a chamou primeiro. Ela só descobriu porque se dispôs — foi tremendo, sem saber o que dizer, visitar quem estava em luto.
A conclusão é a mesma do começo: quer descobrir seu dom? Comece a servir. E lembre-se de que nada do caminho é em vão — nem os momentos de crise, que também servem para lapidar.