Pregações

O caminho da cruz: a primeira Páscoa

Pregada por João Carlos Oliveira · Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

A mensagem abre pelo supermercado. Ele passou por lá naquela semana e viu as prateleiras tomadas por ovos de chocolate — e pergunta à igreja por que isso acontece só nessa época do ano.

Daí sai uma brincadeira longa e boa. Ele conta que, quando criança, a casa tinha um terreno grande, com galinheiro e, num canto, um pequeno viveiro de coelhos. A mãe mandava buscar ovos no galinheiro; **nunca mandou buscar ovo no viveiro dos coelhos.** E ele conclui que, se coelho pusesse ovo — ainda mais de chocolate —, ele teria montado uma criação.

O que a data virou

Feita a piada, vem o ponto: com o passar dos anos, tanto a Páscoa quanto o Natal viraram comércio e perderam o sentido.

E ele é enfático sobre a proporção: **para quem crê, a Páscoa deveria ser a data mais importante da igreja** — a mais celebrada, tanto na comunidade quanto em casa.

Ele conta a prática da própria família: enquanto os filhos eram pequenos, ele e a esposa não davam presentes nem chocolate na Páscoa e no Natal, para não fixar na cabeça deles que aquelas datas são sobre ganhar coisas. Presenteavam em outras épocas e nos aniversários.

E faz questão de abrir um parêntese, duas vezes ao longo da mensagem: **não está dizendo que dar um ovo de chocolate seja errado.** O que importa é saber explicar o que a data é de verdade. Aliás, se alguém quiser lhe dar um chocolate, ele aceita com o maior prazer.

Como o povo foi parar lá

O texto é Êxodo 12.1-14, e antes dele vem o resumo de como se chegou até ali.

A promessa a Abraão de um grande povo. José vendido pelos irmãos, parando no Egito e chegando a governar abaixo do faraó — e, com isso, preparando a reserva de alimento que salvaria não só a própria família como o próprio Egito. A família de Jacó, umas setenta pessoas, descendo para lá.

Séculos depois, aquelas setenta pessoas eram uma nação inteira. E aí a situação virou: morreram José e o faraó da época, entraram outros faraós que **já não conheciam a história** — não sabiam por que aquele povo estava ali, nem o acordo que existia. Um povo que tinha chegado a convite passou a ser escravizado.

Eles clamaram. E o texto diz que Deus ouviu.

Moisés, e as desculpas

Ele resume a história de Moisés — o menino poupado, criado na melhor educação egípcia, a fuga depois de matar o soldado, os anos no deserto onde Deus o trabalhou — até a sarça ardente.

(De passagem, uma lembrança de escola dominical: crianças cantando sobre a sarça que ardia e entendendo “assar sardinha”.)

E quando Deus chama, Moisés apresenta mil desculpas. A aplicação é imediata e ele se inclui nela: **na igreja, diante de um convite ou de um desafio, a primeira reação da maioria de nós é a desculpa** — não posso, não estou preparado, não sei falar. Poucos se colocam à disposição de cara.

Para dimensionar o tamanho do que estava sendo pedido, ele traduz para hoje: seria Deus mandando alguém ir a Brasília confrontar o presidente e dizer que foi Deus quem mandou.

“Deus está me zoando?”

A primeira ida piora tudo: o faraó corta o fornecimento de matéria-prima e mantém a mesma produção diária. E o povo se volta contra Moisés — você veio ajudar e complicou.

Aqui ele levanta a pergunta que o incomoda de verdade: **se Deus está mandando Moisés ir, por que Deus avisa que vai endurecer o coração do faraó?** Manda ir e já diz que o outro não vai ceder.

As três respostas que ele dá: primeiro, obedecer. Segundo, Deus sabe o que faz. Terceiro — e é a que ele desenvolve — **Deus tem maneiras de manifestar o poder dele que nós não compreendemos.**

E a aplicação: passamos por lutas sem entender o que está acontecendo, com a impressão de que Deus não ouve ou virou as costas. E ele está trabalhando — se houver ouvidos e olhos atentos para perceber.

O detalhe que ele destaca

Esta é a observação mais forte da mensagem, e é sobre um contraste que passa despercebido.

**As pragas atingiam só os egípcios.** Do lado hebreu não acontecia nada. Lá a água virava sangue; aqui, água potável. Lá a praga dos gafanhotos; aqui, a plantação verdinha. Lá o granizo; aqui, uma chuvinha boa para a roça.

Ou seja: **o povo hebreu assistia àquilo de fora.** Não tinha compromisso nenhum com o que estava acontecendo. E Moisés carregava a coisa sozinho.

E então ele vira a chave para dentro da igreja:

**“A pastora que se vire. O pastor que resolva. O problema é da igreja, eu não tenho nada com isso.”**

Não é assim, diz ele — a responsabilidade é nossa também. Somos um corpo. Se um sofre, todos sofrem junto; se um se alegra, todos se alegram junto.

A décima é diferente

E aí chega a praga em que **o povo entra junto**. Agora eles têm parte na coisa.

Cada família separa um animal sem defeito. Se a família for pequena demais para um animal inteiro, divide com o vizinho mais próximo — detalhe que ele sublinha, porque é uma instrução sobre repartir. Prepara-se a refeição, come-se de pé, com sandálias nos pés e cajado na mão, pronto para sair.

E passa-se o sangue nos umbrais da porta.

A pergunta que o texto não responde

Aqui ele faz uma pergunta que a Escritura deixa em aberto: **será que todos passaram o sangue?**

O texto não diz que todos passaram, e não diz que alguém deixou de passar. Mas, conhecendo o ser humano — sempre tem o teimoso que quer pagar para ver.

**E o ponto é justamente esse: agora a decisão era deles.** Deus deu a ordem e a promessa: se obedecerem, a morte não chega à casa de vocês. Dali em diante, estava nas mãos de cada família.

A ilustração que ele usa é uma historinha para crianças, e funciona. Uma criança, às onze e meia da noite, pergunta ao pai se o sangue foi passado na porta. Foi. Tem certeza, pai? Bom — eu mesmo não passei, pedi para um amigo, mas é gente de confiança.

A criança não conseguiu dormir. Cinco para a meia-noite, insistiu para irem olhar.

**O sangue não estava lá.** O pai correu, passou, e terminou bem na hora em que deu meia-noite.

Por causa de cinco minutos.

A madeira, mil anos antes

E a tipologia que dá nome à série: aquele sangue passado na madeira da porta já apontava para outra madeira, mais de mil anos depois, onde outro sangue seria derramado — desta vez pelo pecado.

Páscoa quer dizer **passar por cima**. Lá, o anjo passava direto pelas casas marcadas. Aqui, o sangue de Cristo.

De que precisamos ser libertos

“A Páscoa é para libertar cativos.” Lá foi a libertação de um povo escravizado; hoje, a libertação do pecado.

E ele descreve o estado daquele povo com uma precisão que serve de espelho: escravizados havia tanto tempo que já estavam **acostumados** — sem iniciativa, achando que não eram nada mesmo, que só sabiam obedecer e que a desobediência traria castigo.

Depois abre a lista do que ainda aprisiona gente hoje: coisas do passado, violência sofrida, problemas dentro de casa. **E, com todas as letras, a opressão dentro da própria igreja** — o legalismo das comunidades em que não se pode isso, não se pode aquilo, senão a pessoa vai para o inferno; gente pressionada por tradições, costumes e usos, e sem liberdade.

E depois ainda vem o deserto

Uma ressalva honesta: quando o faraó finalmente cede, os problemas não acabam. Ele volta atrás e manda o exército; vem o mar Vermelho; e depois vêm anos de deserto, onde Deus trabalha e quebranta aquele povo.

É assim também com a gente. Às vezes a passagem pelo deserto é o próprio processo de limpeza — Deus dizendo *estou aqui*, enquanto a gente não quer ouvir.

Ser diferente

Ele conta que, por não darem presentes nas datas, ele e a esposa eram considerados meio fora da casinha.

E a resposta dele: **“prefiro ser diferente neste mundo e ter a eternidade com Deus, do que ser igual aos outros e perder a eternidade — porque aqui são poucos anos.”**

É a partir daí que ele fala sobre firmeza. Conta que, tendo estudado história, teve de sustentar o que crê em debate com professores mais de uma vez — e que quem não está firme, e não tem certeza do que quer, acaba seduzido e enganado.

A ilustração que fecha esse trecho é uma história conhecida: um professor de ciências que declara a Páscoa um mito e desafia um aluno a orar para que um ovo, ao ser solto, não se quebre. O menino ora — mas pede outra coisa, e o pedido é suficientemente desconcertante para que o professor guarde o ovo e encerre a aula ali mesmo.

O menino sabia que Deus não agiria daquele jeito. Mas sabia também que, naquele instante, a dúvida tinha mudado de lado. E é essa a conclusão dele:

**“Nós é que temos que colocar a dúvida no coração do mundo lá fora — e não o mundo colocar dúvida no nosso coração.”**

O que fazer com a data

O fecho é prático. Que a Páscoa não passe batido: que seja celebrada em família, como momento de buscar a Deus e agradecer pela liberdade e pela salvação. Foi isso que Deus ordenou a Moisés — **e ordenou como decreto perpétuo**, ou seja, para ser feito sempre.

O povo judeu ainda celebra daquele jeito, com as ervas amargas para lembrar o período amargo do Egito. Para nós, o conteúdo é a morte e a ressurreição de Jesus.

E ele encerra admitindo, com bom humor, que tinha muito mais coisa anotada que não falou — e falou várias que não estavam anotadas. “Esse é meu jeito mesmo.”