Quem é Jesus? A série de novembro parte das vezes em que ele mesmo respondeu — sempre com a mesma expressão, que no grego original é *egō eimi*: eu sou.
Eu sou a porta. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Eu sou a videira. Eu sou o pão da vida. Eu sou a luz do mundo. O que está por trás dessa fórmula repetida?
A controvérsia da época
Há dois mil anos a pergunta era a mesma, e as respostas eram opostas. Jesus chegou a perguntar aos discípulos o que as pessoas diziam dele — uns achavam que era Elias, outros um profeta —, até que Pedro confessou: “tu és o Cristo, o Filho de Deus”.
Mas isso não era unanimidade. Em João 8.48 a liderança judaica responde: “não estamos certos em dizer que você é samaritano e está endemoninhado?” Eles esperavam um Messias com pompa, e não aceitavam um homem vindo da periferia da Galileia. Viram os milagres, viram expulsões de demônios — e concluíram que ele expulsava demônios pelo chefe dos demônios.
Havia também o incômodo da concorrência: as pessoas estavam ouvindo Jesus, que ensinava com autoridade, e não os escribas.
“Antes de Abraão nascer, eu sou”
No fim daquele debate, quando alegam que Abraão é maior, Jesus responde: “eu lhes afirmo que, antes de Abraão nascer, eu sou” (João 8.58).
A pregação pede atenção ao verbo. Ele não disse “eu era” nem “eu existia”. Disse **eu sou** — no presente, falando de quatro mil anos atrás.
E antes já havia avisado: “vocês são daqui de baixo, eu sou lá de cima… se vocês não crerem que eu sou, de fato morrerão em seus pecados”.
A sarça ardente
Para entender de onde vem essa expressão, o texto vai a Êxodo 3. Moisés pastoreava o rebanho do sogro quando viu uma sarça em chamas que não se consumia. Ao se aproximar, ouviu: “tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra santa”.
Deus se apresenta como o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, diz ter visto a opressão do seu povo no Egito e envia Moisés ao Faraó.
Moisés responde com uma pergunta e depois com uma sequência de desculpas: “quem sou eu para apresentar-me ao Faraó?” Estava sendo mandado enfrentar o governante mais poderoso da região, com o maior exército da época. A pregação transforma isso em pergunta para nós: diante de uma tarefa difícil, ou você confia que Deus está com você, ou não confia — e, se não confia, vai tentar cair fora do jeito que der.
A resposta de Deus é a mesma que Jesus daria depois na Grande Comissão: “eu estarei com você”.
Então Moisés levanta o segundo problema: e se o povo perguntar qual é o nome desse Deus? E vem a resposta que dá título à mensagem: **“EU SOU O QUE SOU. É isto que você dirá aos israelitas: EU SOU me enviou a vocês.”**
O que esse nome significa
A pregação extrai quatro coisas.
**Deus é misterioso.** Humanamente incompreensível. Não cabe na nossa mente — nos cerca de mil e quinhentos gramas de cérebro que temos, não dá para colocar Deus dentro. E se conseguíssemos compreendê-lo por completo, ele não seria Deus.
**Deus é sempre presente.** Ele não disse “eu era”. Nós temos noção de passado, presente e futuro; para ele tudo é presente. E isso vale na sua vida — nas coisas boas e nas ruins, nas grandes e nas pequenas, nas públicas e nas privadas.
**Deus é incomparável.** Não há com o que comparar, não há como descrever.
**Deus é o único.** É o primeiro dos dez mandamentos: “eu sou o Senhor teu Deus, não terás outros deuses além de mim”. Qualquer outra divindade é produto da imaginação e das mãos humanas — inclusive as menos visíveis, como o dinheiro, que também pode se tornar um deus.
Um cheque assinado em branco
Aqui vem a imagem mais bonita da pregação. Para quem não crê, esse nome permanece um mistério fechado. Para quem confia, Deus vai se revelando aos poucos, conforme a necessidade — e o “eu sou” vai sendo completado.
Foi assim com Israel. Ao sair do Egito, eles experimentaram **eu sou o teu libertador**. No deserto, sem médicos nem recursos, experimentaram **eu sou o Senhor que te cura** (Êxodo 15.26). Nas batalhas, **eu sou a tua bandeira** (Êxodo 17.15). Depois, **eu sou a paz** (Juízes 6.24). E diante da falta, **eu sou o que provê**.
É como um cheque que Deus assina e entrega para ser preenchido conforme a necessidade.
E há escravidões de vários tipos — vícios, envolvimentos, coisas das quais não se consegue sair sozinho. Também há doenças que não são só do corpo, mas emocionais e psíquicas, e nas quais é possível se voltar para aquele que sustenta e cura.
Duas opções, e só duas
Quando Jesus diz “antes de Abraão nascer, eu sou”, ele está dizendo que é aquele mesmo que apareceu a Moisés. Está dizendo que é Deus.
Diante disso só restam duas alternativas: cair de joelhos e reconhecer, ou julgá-lo louco. E o último versículo do capítulo registra qual delas foi escolhida ali: “então eles apanharam pedras para apedrejá-lo, mas Jesus escondeu-se e saiu do templo”.
A pregação observa por que ele se retirou: não era aquele o cálice. O cálice dele seria muito mais doloroso — a cruz. Tanto que, diante de Pilatos, ele silencia e diz que o seu reino não é deste mundo; se fosse, teria providenciado soldados.
Ele foi para a cruz conscientemente, para resolver o problema que nos separa de Deus.
O alerta de João 8.24 continua de pé: “se vocês não crerem que eu sou, de fato morrerão em seus pecados”. Ou cremos, ou o rejeitamos. Não há terceira opção.