Este culto foi transmitido ao vivo com o templo praticamente vazio: só o grupo de louvor, a equipe de mídia e alguém do presbitério. A saudação é dirigida a quem está em casa assistindo — e a mensagem começa com a confissão de que a falta da comunidade se sente.
E traz uma data. **Naquela semana a Igreja Luterana em Três Lagoas completava 32 anos**: quem prega conta que chegou à cidade em fevereiro de 1989, com a esposa e a família, para formar a comunidade.
O texto é Filipenses 2.12-18.
Uma igreja que nasceu na cadeia
Antes do texto, o contexto — e ele é bom.
Quando Paulo escreve, a igreja de Filipos tinha talvez dez ou quinze anos. **E ela nasceu sob sofrimento.**
A primeira pessoa a se converter ali foi **Lídia**, uma senhora rica, vendedora de púrpura. E outra das primeiras foi **o carcereiro**: na noite em que Paulo e Silas foram presos injustamente por causa da pregação, os dois estavam cantando quando veio um terremoto. O carcereiro, achando que todos haviam fugido, ia tirar a própria vida — e naquela mesma noite chegou à fé e foi batizado com a família.
**Aquela igreja começou dentro de uma prisão.**
E Paulo escreve **de outra prisão** — provavelmente em Roma, depois de dois anos preso em Cesareia e da viagem desastrosa que terminou em naufrágio, aguardando julgamento.
O elogio, e o que ele significa
*“Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência…”*
O elogio é preciso: **eles obedeciam quando Paulo estava entre eles — e continuaram obedecendo quando ele já não estava.**
E daí sai a definição que dá título à mensagem. **A obediência cristã não é obediência a uma lei, nem por obrigação.** É o que se presta voluntariamente, por gratidão pelo que Jesus fez.
O modelo está poucos versículos antes, no mesmo capítulo: *“seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus… humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz”*.
**E Jesus foi obediente porque confiava absolutamente no Pai.** É essa a ordem: primeiro a confiança, depois a obediência.
1. Não estacionam
*“Ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar.”*
A imagem que ele usa é de rua: **“a gente lê uma placa de ‘não estacione’ e tem gente que estaciona assim mesmo. Não estacione na sua vida de fé.”**
Pôr a salvação em ação é crescer — **não permanecer na infantilidade da fé**. É o que se chama discipulado: ir conhecendo e ir imitando.
E ele lista o que isso é na prática: não se acomodar **mesmo com problemas pessoais, mesmo diante de uma pandemia, mesmo quando não se gosta de como as coisas estão na igreja**; compadecer-se de quem está ao redor e ir ao encontro das necessidades; convidar; ajudar outros a crescer.
E **usar os dons que se tem** — sejam quais forem. Quem tem dom musical, no louvor. Quem está na mídia. Quem tem dom de liderança, cuidando de um grupo pequeno. Quem ensina. **E quem tem dom de servir — que vai limpar o templo, trabalhar na cozinha, servir a comida.** Nada disso é menor.
Entra aí também a contribuição regular para o trabalho da comunidade, com uma observação que vale registrar: **Deus não precisa daquilo — quem precisa é a igreja.** (Naquele ano, a comunidade assumiu o compromisso de apoiar o trabalho missionário numa cidade vizinha.)
2. Fazem tudo sem queixas
*“Façam tudo sem queixas nem discussões.”*
Ele reconhece que essa é uma tendência de muita gente — **e se inclui, contando que os próprios filhos chamaram a atenção dele por isso naqueles dias.**
A tradução mais antiga diz “fazei tudo sem murmurações”. E o exemplo que ele traz é o mais pesado possível.
**O povo de Israel saindo do Egito viu coisas grandiosas.** Viu as pragas, viu o mar se abrir e passou em seco, viu o exército egípcio ficar para trás, recebeu maná todos os dias, viu água sair de uma rocha.
**E vivia murmurando** — contra Moisés e contra Deus.
O resultado: **daquela geração inteira, todos os que tinham vinte anos ou mais, ninguém entrou na Terra Prometida — exceto dois: Calebe e Josué.**
**“Quem vive murmurando, se queixando e criando contendas, perde bênção.”**
3. Brilham como estrelas
*“…filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo.”*
E aqui vem a ressalva que evita o mal-entendido: **somos chamados a brilhar — não para aparecer.** Aparecer é vaidade e orgulho. Brilhar é **ser referência**.
Ele nota, ali mesmo, que a coisa é literal: **sem as luzes acesas naquele templo vazio, não haveria gravação nem mensagem.**
E a imagem que ele desenvolve é a do **farol**. Ao longo do litoral existem faróis para que os navios não se percam nem se arrebentem — para que o capitão enxergue por onde guiar. **É essa a função de um cristão maduro: ser o ponto pelo qual outra pessoa consegue se orientar até Jesus.**
O que faz alguém brilhar, na lista dele, não é nada espetacular: **a conduta, o amor pelos outros, o servir, a dedicação, e o modo educado e delicado de tratar as pessoas.**
4. Retêm firmemente a palavra da vida
*“…retendo firmemente a palavra da vida.”*
E aqui vem a observação histórica que muda o peso do versículo: **naquela época o Novo Testamento ainda não existia.** Aqueles cristãos não tinham as Escrituras em mãos, e a imensa maioria das pessoas **não sabia ler nem escrever**. Não havia nada parecido com o acesso que temos.
**“Reter a palavra da vida não é uma questão de ter uma Bíblia. Nem de simplesmente ler a Bíblia em casa. É muito mais do que isso.”**
É meditar, procurar ver o que Deus quer dizer através daquilo — **e pôr em prática**.
E é por isso, diz ele, que os pequenos grupos importam: **o foco de uma célula é pegar a palavra pregada no domingo e perguntar como colocá-la em prática durante a semana.**
5. São alegres — inclusive no pior
*“Mesmo que eu esteja sendo derramado como oferta de bebida sobre o serviço que provém da fé que vocês têm, estou alegre e me regozijo com todos vocês.”*
A situação de quem escreve isso: **Paulo está prestes a ser julgado por César.** E percebe qual é o desfecho provável, porque era um líder cristão, e os cristãos não adoravam o imperador como deus.
O detalhe que ele acrescenta é jurídico: **Paulo não seria crucificado.** Jesus e Pedro foram; Paulo tinha cidadania romana, e cidadão romano não era crucificado. Segundo a tradição, foi decapitado.
E ele explica a metáfora da **“oferta de bebida”**: no sacrifício diário do Antigo Testamento, junto com o animal, a farinha e o azeite, derramava-se vinho. **Paulo está dizendo que a própria morte seja isso — o vinho derramado por cima do sacrifício que é a fé daquela comunidade.**
**“Por isso não fiquem tristes se eu morrer, porque é pelo Senhor.”**
E há um desejo dele que a pregação destaca e que é bonito: Paulo gostaria de estar lá no dia em que o Senhor chamar cada um daqueles irmãos e lhes der a coroa da vida — **“eu gostaria de estar lá para bater palma.”**
O Cruzeiro do Sul
O fecho retoma a navegação, com outra imagem: **tanto faz estar no Pacífico ou no Atlântico — quem conhece o Cruzeiro do Sul sabe onde fica o sul, e o marinheiro sabe para onde conduzir o navio.**
Seja alguém assim: uma referência que ajuda outros a chegar ao porto certo.
O que aquele culto pedia em oração
Vale registrar o que ficou na oração final, porque data a mensagem melhor do que qualquer explicação: **consolo para quem havia perdido pessoas na pandemia**; que o país se organizasse para que as vacinas — aprovadas naquele mesmo dia — pudessem ser produzidas em quantidade e aplicadas; e que os pequenos grupos, parados havia muito tempo, conseguissem ser retomados, ainda que online.