A série fecha com um conceito que a teologia chama de **“o já e o ainda não”**. Nós conhecemos Deus, experimentamos o amor, a graça, o perdão e a presença dele **já** aqui — e **ainda não**, porque não temos isso de forma plena. O que temos é um gostinho. Um cheiro.
E aí a pregação volta ao começo de tudo.
O suco
No primeiro culto da série, para explicar por que o Apocalipse está cheio de “era como”, ela tinha tentado descrever uma fruta que quase ninguém ali conhecia: o araçá-boi, da chácara dos pais dela. Amarela como maracujá, casca fina como a do pêssego, mole como pêssego passado, sementes enroladas na polpa lembrando cupuaçu, suco denso e azedo.
Descreveu tudo — menos o gosto, que ela disse não conseguir explicar.
Nesta noite a mãe dela veio visitar, e trouxe uma jarra de suco de araçá-boi. Chamou voluntários. Um achou parecido com maracujá com limão, outro comparou com outras espécies de araçá, alguém achou muito azedo.
**O ponto é esse.** Agora, quando ouvirem falar da fruta, essas pessoas vão dizer “já experimentei, sei como é” — e não vão precisar de imaginação nenhuma.
A fé funciona parecido. Explicar para alguém o que é encontrar alegria nas palavras de Deus, ou o consolo que vem delas, é quase impossível para quem nunca experimentou. Não há passo a passo. O que dá para dizer é: **vem, vamos viver isso juntos.**
E é exatamente o que João está tentando fazer no Apocalipse. Ele viu algo para o qual não tinha palavras, e por isso o livro inteiro é “era como”, “era como”. Daí, aliás, vem a dificuldade do livro: não há acordo sobre a maior parte dele, cada pregador enfatiza uma coisa, existem teologias inteiras diferentes de leitura — **porque o próprio João teve dificuldade de explicar o que estava vendo.**
Por que aquelas igrejas precisavam ouvir isso
Quando Jesus subiu aos céus, os cristãos entenderam que ele voltaria logo — dali a alguns meses, talvez alguns anos. Quando o Apocalipse chega, já haviam passado uns trinta e cinco anos. E nesse meio-tempo: perseguição, prisão, morte, desânimo.
Nos capítulos 4 a 20 João descreve o que viu, e a pregação resume o propósito: mostrar àquelas igrejas que **haveria um fim**. Fim para quem as perseguiu, fim para toda a maldade do mundo. Aquilo não seria assim para sempre.
Para quem espera a volta de Jesus, esse é um livro de esperança. Para quem não crê — ou para quem está em cima do muro, a imagem que já apareceu nesta série —, ele causa medo.
O que a gente imaginava quando criança
O texto agora é Apocalipse 21. E antes de lê-lo, uma confissão que a pregação faz sobre a própria cabeça.
Por boa parte da vida dela, as cenas da vida eterna vinham de desenho animado: nuvens, harpas, todo mundo de branco sem fazer nada. E ela pensava: *Deus, eu sei que tu disse que vai ser bom, mas parece tão chato.*
Tinha também a fila gigante para entrar — e a conta de criança: vai demorar muito, porque muita gente viveu antes de mim; mas como é eterno, não vou estar perdendo tempo. E lá no fim da fila, sentado, um velhinho de barba branca.
Até que, na faculdade de teologia, um professor — que tem um livro sobre o assunto — explicou que se trata de uma **nova criação**, e que a Nova Jerusalém **desce**.
“Opa. Então eu não vou subir? É o céu que desce?”
Uma criação, não uma nuvem
“Então vi novos céus e nova terra… e vi a cidade santa, a Nova Jerusalém, que descia dos céus da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido.”
A eternidade descrita ali é muito mais cheia de elementos do que a nuvem que a gente imagina. Paulo escreve sobre isso em Romanos: a criação aguarda a redenção dos filhos de Deus. Vai haver terra, vai haver árvore, vai haver o que conhecemos.
A diferença é uma só: aquela criação **não sofrerá mais as consequências do pecado** — a autodestruição, o descontrole, tudo o que tira a harmonia dela.
E não é só jardim, como se fosse voltar ao Éden. Vai haver **cidade**. A frase que a pregação guarda do professor é ótima:
**“A vida eterna é o casamento do jardim com a cidade.”**
A cidade é uma criação humana, e Deus a colocou na eternidade. Sem, evidentemente, as consequências que a cidade carrega hoje: a criminalidade, a fome, tudo o que nos assusta.
Povos diferentes, e isso não sendo um problema
“Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos.”
Repare no plural. Ali haverá gente de lugares diferentes, épocas diferentes, culturas e línguas diferentes — pessoas que aqui talvez nem conseguissem se comunicar.
E a pregação faz a observação que dói: aqui a diferença costuma ser um problema. Lá não será — porque não estaremos permeados de orgulho, inveja e ambição.
“Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor.”
Sobre isso ela é honesta: **nós não conseguimos imaginar uma vida assim, porque nenhum de nós conheceu uma.** Não existe quem atravesse a vida sem choro, sem tristeza, sem dor. O próprio Jesus, quando veio, passou por todas elas.
Dois “está feito”
“Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim.”
A pregação encaixa isso com o que Jesus disse na cruz: **está consumado**. Aquilo é o “já” — ali a morte foi vencida, e a salvação já pode ser experimentada.
Este segundo “está feito” é o “ainda não” deixando de existir. Não é só a morte vencida: é o pecado eliminado, e com ele todas as consequências que nos acompanham.
E o que é pecar, afinal? A palavra vem do grego usado nos jogos, no tiro ao alvo: quando erravam o alvo, era essa a palavra. **Pecar é errar o alvo para o qual fomos criados** — viver com Deus, ter relacionamento com ele. Desde que fomos postos para fora do jardim, o orgulho, a inveja, a ambição, o egoísmo e o narcisismo vão nos afastando dele.
Sobre a segunda morte, do versículo 8, a pregação assume o limite da interpretação: se será um lugar de fogo, se as pessoas deixarão de existir — a Bíblia comporta mais de uma leitura. **O fato é a separação de Deus para sempre.**
E o que isso deveria produzir em quem crê não é conforto, é dor. Deveria ser motivo de interceder e de anunciar — de dizer a alguém: **experimenta, pelo menos sente o sabor.**
A cidade, e o que ela diz
O anjo convida: “venha, eu mostrarei a você a noiva, a esposa do Cordeiro”. Noiva aqui é a igreja — as pessoas, não a construção.
E vem a descrição: doze portas com os nomes das doze tribos, três para cada direção — portas para todos os lados, para todos os povos. Doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos. Uns 2.200 km de extensão. Um muro de 65 metros de espessura. Ouro puro, jaspe, safira, esmeralda. Cada porta feita de **uma única pérola**.
Literal ou simbólico, para a pregação uma coisa fica clara: aquilo que Deus fez é infinitamente maior, mais rico e mais imponente do que qualquer cidade que o ser humano já construiu. Roma caiu. Babilônia caiu. Jerusalém caiu. Todas tinham muros altos, exércitos, riqueza — e não resistiram.
**Na cidade dele, ouro é como terra. Ouro é pó.**
Vocês se degladiam e se matam por riqueza, poder e glória; ali, as pedras preciosas que despertam tanta cobiça são tijolos segurando fundamento.
E o muro de 65 metros numa cidade sem guerra, sem exército e sem ladrão? Ninguém vai tentar derrubá-lo. Está ali como demonstração de poder e soberania — daquilo que o ser humano nunca vai conseguir construir.
E não havia templo
Esta é a parte que mais chamou a atenção de João, e a pregação explica por quê.
“Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo.”
Um judeu esperaria que o templo fosse a maior construção da cidade. O de Salomão foi a coisa mais imponente que Jerusalém conheceu, cheio de ouro — e os babilônios levaram tudo.
Ali não precisa. Porque Deus passeia por aquela cidade; ele é a luz dela.
E daí sai a progressão mais bonita da mensagem:
**No Antigo Testamento, Deus habitava num lugar** — o tabernáculo, a arca que se carregava a cada acampamento, depois o templo. Deus tinha uma casa, e isso tinha a ver com construção.
**No Novo Testamento, ele habita em nós.** A pregação diz isso apontando para o próprio prédio: *aqui não é a casa do Senhor; esta construção não é a casa do Senhor.* Ele habita na igreja — nas pessoas.
**Na vida eterna, ele habitará entre nós.** Não mais dentro, mas no meio. Nós o veremos, e caminharemos com ele como Adão e Eva caminhavam.
O mesmo vale para a luz: hoje ele habita em nós e diz “vocês são a luz do mundo”, então a luz vai aonde formos, porque é ele quem brilha através. Lá, a luz dele iluminará a todos.
Três conclusões
**Primeira:** o Apocalipse é revelação de esperança, e deveria fazer brilhar os olhos. Aqui haverá dor, tristeza, separação, luto — e Jesus está dizendo que isso tem prazo para acabar.
**Segunda:** imagine aquelas igrejas lendo o capítulo 21 pela primeira vez. “O vencedor herdará tudo isso” é a mesma promessa que fecha cada uma das sete cartas — a coroa, a veste branca, o nome no livro da vida, estar com ele naquele dia. Tudo aquilo aponta para cá.
**Terceira:** a nossa esperança não está no aqui e agora. Mas a pregação faz questão de barrar o desvio: **isso não significa deixar de viver a vida aqui à espera da eternidade** — há cristãos que vão por essa linha, e não é isso. Vivemos os nossos dias sem perder a consciência de que não fomos criados para acabar.
E o que se pede é o resumo de Mateus 22.37: amar a Deus acima dos seus desejos, acima da sua família, acima do seu trabalho, acima dos prazeres desta vida, acima dos seus medos, acima da sua aflição e da sua dor.
Porque no fim é para ele que voltamos.