Este culto veio logo depois de um retiro de jovens e adolescentes, com as fileiras da frente cheias — coisa que quem prega diz desejar que vire padrão, em vez de o grupo se esconder lá no fundo.
O fim de semana tinha sido difícil de organizar: o palestrante convidado adoeceu na véspera e não pôde vir, e duas pessoas que já estavam a caminho para ajudar nas gincanas se ofereceram para trazer as mensagens — depois de doze horas de viagem de carro.
Quando a pessoa perdida não sabe que está perdida
A pregação abre com uma imagem cotidiana: o motorista que se perde no trânsito e não usa GPS. A pessoa do lado avisa que o caminho parece errado, e ele não admite.
Esse é exatamente o problema de Laodiceia.
A carta
O texto é Apocalipse 3.14-22. Jesus se apresenta como “o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o soberano da criação de Deus” — ou seja, quem está falando ali é aquele que criou absolutamente tudo e tem poder sobre tudo.
E então vem: “conheço as suas obras; sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, **estou a ponto de vomitá-lo da minha boca**”.
Diferente de Esmirna, que só recebeu elogios, Laodiceia leva um soco na cara.
O que aquilo descreve: gente que às vezes é cristã e às vezes não; que às vezes ora e às vezes não; que às vezes ouve e às vezes não. Vai à igreja de vez em quando, tem uma Bíblia em casa e abre quando é necessário, cumpre o mínimo do padrão — e segue a vida.
Por que morno é pior
Aqui está o argumento central, e ele é contraintuitivo.
Quem está perdido **e sabe** que está perdido pode ouvir qual é a vantagem de não estar mais. Quem já está no caminho certo não precisa mudar.
O problema é quem **não está e acha que está**. Essa pessoa segue rumo à morte convencida de que vai para a vida — e, quando alguém tenta falar, responde que está tudo certo por aqui e que já ouviu o suficiente sobre Jesus.
**A pessoa mais difícil de mudar é a que acha que está no caminho certo e não está.**
“Sou rico e não preciso de nada”
“Você diz: estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada. Não reconhece, porém, que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e nu.”
A pregação faz o paralelo com Salomão — o homem mais rico e poderoso do seu tempo, que chega ao fim da vida dizendo que nada daquilo valeu.
E com o filho pródigo, que gasta tudo na juventude e só se vê como está quando chega ao fundo do poço. A expressão da Bíblia é precisa: **“caindo em si”**. Laodiceia ainda não tinha caído em si.
Três conselhos
“Dou-lhe este conselho: compre de mim ouro refinado no fogo, e você se tornará rico; compre roupas brancas e vista-se, para cobrir a sua vergonhosa nudez; e compre colírio para ungir os seus olhos, para que você possa enxergar.”
O **ouro** não é barra de ouro: é vida eterna. A riqueza que se tem aqui morre com a pessoa; essa dura.
As **roupas brancas** cobrem uma nudez que não é física, e sim espiritual. A pregação lê isso com dureza: não adianta falar da aparência, porque ele conhece o interior, conhece o coração, conhece a verdade que se esconde de todo mundo.
O **colírio** é para quem está cego justamente porque a vida ia bem — porque havia riqueza, porque estava tudo tranquilo, como o filho pródigo na fase em que ainda curtia.
Repreensão é amor
“Repreendo e disciplino aqueles que eu amo. Por isso, seja diligente e arrependa-se.”
Quem prega assume isso em primeira pessoa: repreende quem ama, porque não quer ver ninguém que ama se perdendo. E define como se faz — não é apontar o dedo, é chegar e dizer “vem cá, me diz o que está acontecendo, porque você está longe, está se escondendo, está fugindo”.
E menciona pessoas que perdeu, que servem de lembrete de nunca desistir de anunciar enquanto há tempo, porque ninguém sabe o dia de amanhã.
O muro já é meu
A ilustração que fecha o argumento é a mais forte da mensagem.
Imagine alguém andando em cima de um muro, indecisa sobre que rumo dar à vida. De um lado está Jesus, chamando o tempo todo: vem, este caminho leva à vida, me dá o seu coração. E ela segue andando, olhando para os dois lados.
Do outro lado está o diabo — sentado, calado, tranquilo, sem se esforçar para nada. Alguém estranha e pergunta por que ele não faz nenhum esforço, já que Jesus está ali chamando sem parar.
E ele responde: **“porque o muro já é meu.”**
Ficar em cima do muro não é neutralidade. É já não pertencer a Jesus. Ou se é dele, ou não se é — não existe meio-termo na fé cristã, e não importa a quantidade de coisas boas que se faça. Ele não quer as nossas ações; quer a vida inteira.
A pregação acrescenta um detalhe que desarma o medo: Jesus e o diabo nunca disputam nada de igual para igual. Aquilo já está decidido.
Ele bate à porta
“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.”
Abrir essa porta muda a vida — e muda para melhor. Quem prega diz isso não como quem quer convencer, mas porque foi o que fez sentido para ela: quando entendeu, ainda jovem, que tudo aqui só tem sentido em relação a Jesus, concluiu que nada mais valeria a pena além de anunciar isso, e foi estudar teologia.
E a promessa fecha alto: “ao vencedor darei o direito de sentar-se comigo em meu trono, assim como eu também venci e sentei-me com meu Pai em seu trono”.
Não se sabe qual foi a resposta de Laodiceia. A nossa ainda está em aberto.