Pregações

Somente a fé

Pregada por Daline Moeller · Igreja Luterana em Três Lagoas

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Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

A pregação abre com uma pergunta: qual é a maior diferença entre o cristianismo e as outras religiões? Não uma diferença de pessoas — uma diferença teológica.

A resposta é a graça. E o motivo é a direção do movimento.

A escada

Em toda outra religião, é o ser humano que vai até Deus. No budismo, as boas ações e orações aproximam de uma próxima vida melhor, ou afastam. No islamismo, são as ações que aproximam ou distanciam do Paraíso. O mesmo vale para as religiões espíritas, as de origem africana, as indígenas: o que a pessoa faz é o que aproxima ou afasta.

E inclusive no judaísmo — porque, apesar de o Antigo Testamento já apontar para a graça, muitos entendiam a Lei como uma escada: cumpri, subo um degrau e me aproximo; falhei, desço e me afasto.

O cristianismo inverte isso. Não temos capacidade de subir escada nenhuma até o céu — **foi ele quem desceu a escada para vir nos buscar**.

E essa é justamente a coisa que o ser humano mais tem dificuldade de entender e viver, porque queremos fazer algo para ficar parecidos com Deus. Aliás, esse é o pecado original: a serpente disse que, se comessem, seriam como Deus.

O que “evangelho” quer dizer

O texto é Romanos 1.16-17: “não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê… porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: o justo viverá pela fé”.

A pregação observa que “evangelho” é uma palavra que não foi traduzida. Se tivesse sido, estaria escrito **boa notícia**. Na época, quem tinha uma boa notícia saía gritando aquela palavra.

E a boa notícia é: Deus enviou o Filho ao mundo sem que fizéssemos nada para isso; ele viveu entre nós para que pudéssemos conhecê-lo, morreu na cruz para perdão dos nossos pecados sem que merecêssemos, e ao terceiro dia ressuscitou, abrindo o caminho para a vida eterna.

A pergunta seguinte é direta: quem fez tudo isso? E o que nós fizemos, além de pecar? Nada. Jesus não veio porque alguém pediu — veio porque era plano de Deus, ponto final. Não há participação humana no plano da salvação; a glória é unicamente dele.

E há uma explicação para a série existir: de tempos em tempos a igreja precisa de uma reforma, de um avivamento ou de uma perseguição — para se lembrar do verdadeiro evangelho, do próprio pecado, e de que só Jesus tem poder de salvar.

Onde está a justiça na cruz?

Aqui está a parte mais afiada. O versículo diz que no evangelho é revelada a **justiça** de Deus. Mas que justiça há num inocente sendo morto, apanhando e sendo cuspido?

A pregação faz então uma crítica direta: vivemos num tempo em que muitos pregam um Deus de amor, e ela já viu pregadores substituírem Jesus por “amor”. O problema é que, no vocabulário de hoje, amor virou aceitar tudo e todos como estão. Por isso, quando alguém diz que é preciso pregar o amor, a resposta é: é preciso pregar **Jesus** — porque ele não é só amor, é também justiça.

Deus é amor e é justiça na mesma medida, e não dá para dissociar nenhuma das duas dele. O amor não permitiria que ele nos deixasse condenados. Mas a justiça não permitiria simplesmente anular o crime — porque anular crime é injustiça. Alguém precisava arcar com a consequência.

A ilustração usada é dura, e a pregação avisa que, como toda metáfora, tem falhas. Imagine que a pessoa que você mais ama foi assassinada. O assassino vai a julgamento e diz que está arrependido — e está mesmo, sinceramente. Se o juiz o mandar embora por causa do arrependimento, isso é justiça? Não. Há uma consequência a pagar.

É aí que Jesus entra: ele se apresenta diante do juízo e diz que paga no lugar. Toma a culpa, o castigo e o crime, e a pessoa segue em paz — justificada. É o que a teologia chama de doutrina da justificação: eu não sou justa por mim mesma, mas em Cristo.

O que fé é — e o que não é

Se a nossa parte é crer, então é preciso saber o que é fé. Sentimento? Sensação? Experiência? Dom?

O versículo que responde é Hebreus 11.1: “ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”.

Fé é **certeza e convicção**, não sentimento. Isso importa porque sentimentos enganam e o coração engana. Vai haver dias em que a oração parece não passar do teto — e isso não significa ter perdido a fé.

Ter fé é ter certeza do que ele fez na cruz, do seu amor e da vida eterna, mesmo sem sentir nada, mesmo sem ver manifestação, mesmo sem falar em línguas. A pregação é explícita nesse ponto: há igrejas que tratam o dom de línguas como prova de fé, e a Bíblia não diz isso em momento algum — é um dos dons, não a medida.

E também não se mede fé por comportamento. Alguém pode ser a pessoa mais amorosa, mais ética e mais correta que você conhece — e não ter fé. As ações não levam ninguém até Deus.

A ordem importa

Aqui a pregação organiza tudo numa sequência simples: **graça → salvação → obras**.

O Espírito convence do pecado; a pessoa responde com fé; a graça é derramada; vem a salvação; e daí em diante ela vive o evangelho praticando boas obras. Essas obras não a levam para mais perto de Deus — ela já está lá, já é filha. O que elas fazem é transformá-la, transformar seus relacionamentos e alcançar quem está ao redor.

O que costumamos fazer é o contrário: **obras → graça → salvação**. Tentamos agir de certo modo, e ainda impomos isso aos outros — pais que exigem certos comportamentos dos filhos para provar que estão no caminho, regras e leis sufocando gente que sequer conhece Jesus ainda. É ilusão: coloca-se a obra à frente da graça.

A distinção que resolve isso é entre salvação e **santificação**. Salvação não depende do que eu faço; santificação é o processo de transformação que vem depois — ser lapidada, ganhar intimidade, mudar. A pregação até brinca com a expressão que se usa por aí: “caí da graça hoje”. Não é assim que funciona.

Lutero sobre a fé

A pregação cita um trecho de Lutero: “há algo muito vivo, atuante, efetivo e poderoso na fé, a ponto de não ser possível que ela cesse de praticar o bem. Ela também não pergunta se há boas obras para fazer: antes que surja a pergunta, ela já realizou… Fé é uma confiança viva e inabalável na graça de Deus, tão certa de si que não se importaria em morrer mil vezes por isso. De sorte que é impossível separar as obras da fé, como é impossível separar a luz do fogo.”

E acrescenta um comentário honesto: talvez Lutero fosse otimista demais, porque às vezes ainda é preciso um puxão de orelha no caminho.

O que as obras revelam

A frase que fecha a mensagem: **as minhas obras não me levam a Deus — elas apenas mostram o Deus que habita em mim.**

Se alguém serve ao deus do dinheiro, as obras revelam. Se serve ao deus do próprio ego, revelam. Se serve ao deus que é o cônjuge ou os filhos, revelam. E se serve ao Deus verdadeiro, também revelam.

A pergunta final é para responder sozinho, com sinceridade: através daquilo que você vive e de quem você de fato é — não da maquiagem que se mostra aos outros — qual é o seu deus?

E o último versículo, 1 João 5.4: “o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”.