A pregação abre com um convite: passar os próximos meses estudando a fundo o Credo Apostólico. A razão é prática. Quem não conhece a base da própria fé dificilmente permanece firme quando aparecem doutrinas tortas ou quando chegam os desertos da vida — os momentos de dúvida, de desânimo, de angústia. É a diferença entre a casa construída sobre a areia e a casa construída sobre a rocha.
O texto que sustenta esse convite é 1 Pedro 3.15: “estejam sempre preparados para responder a todo aquele que pedir a razão da esperança que há em vocês”. Não se sabe o dia nem a hora em que alguém vai perguntar o que é ser cristão — pode ser um vizinho, pode ser um filho pequeno querendo entender a Ceia. Estar preparado exige estudar a Palavra, não só ler um versículo e fechar a Bíblia.
O que é o Credo Apostólico
O Credo não é oração dirigida a Deus: é confissão dirigida ao mundo. Ele nasce da prática do batismo na igreja antiga, quando o candidato era perguntado “crês em Deus Pai todo-poderoso?” e respondia “credo” — “eu creio”. A formulação começa a tomar corpo por volta do ano 150, quando os apóstolos já haviam morrido, os escritos do Novo Testamento ainda circulavam como cartas espalhadas por várias cidades e começavam a aparecer ensinos errados, como o de que Jesus e o Espírito Santo seriam menores que o Pai.
As confissões de fé nasceram curtas e fáceis de decorar justamente por isso: para combater heresia, para dar um mesmo rumo à igreja e para que todos guardassem o essencial numa época em que quase ninguém sabia ler e um pergaminho custava uma fortuna.
Creio
Crer não é a mesma coisa que acreditar que Deus existe. Tiago 2.19 é direto: “você crê que existe um só Deus? Muito bem, até os demônios creem e estremecem”. Saber que Deus existe não muda nada; confiar a vida a ele muda tudo. Quando a igreja confessa “creio em Deus Pai”, está dizendo “entrego minha vida a esse Deus”.
A pregação lembra que muita gente coloca a fé em outras coisas — reencarnação, energias, astros, rituais, o próprio coração — e que essas coisas não se somam à fé cristã: uma anula a outra. Quem crê em reencarnação não crê em ressurreição.
Deus Pai
Antes de Jesus, ninguém chamava Deus de Pai. Os líderes religiosos se enfureciam ao ouvi-lo fazer isso; eles nem pronunciavam o nome de Deus. Foi Jesus quem ensinou os discípulos a orar “Pai nosso que estás nos céus” (Mateus 6.9), e é por meio dele que essa proximidade se torna possível: “aos que o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (João 1.12).
Vem daí um alerta pastoral. Como somos limitados, tendemos a imaginar Deus Pai parecido com o pai que tivemos. Quem teve um pai ausente sente frieza ao chamar Deus de Pai; quem teve um pai rígido imagina um Deus pronto para punir; quem teve um pai permissivo acha absurdo obedecer. Estudar as Escrituras serve também para isso: para não projetar em Deus o que era próprio do pai terreno. Deus corrige, exorta, abraça, ama, cuida e está perto.
Todo-poderoso
O louvor de Davi em 1 Crônicas 29.10-13 mostra alguém que conhecia esse Deus: “teus, ó Senhor, são a grandeza e o poder, a glória, a majestade e o esplendor”. Não há nada sobre o que ele não domine.
Daí vem a pergunta difícil, que a pregação enfrenta de frente: se Deus é todo-poderoso, por que crianças passam fome e inocentes morrem? A resposta vem em três partes. Primeiro: se Deus eliminasse a maldade do mundo, nos eliminaria junto, porque há maldade em todos nós. Segundo: a criação produz comida suficiente para toda a terra — a fome existe porque uns têm demais e jogam fora enquanto outros não têm nada, e a responsabilidade por isso é humana. Terceiro: não somos marionetes, e Deus permite que arquemos com as consequências das nossas escolhas, como um bom pai ensina o filho a fazer. A solução para tudo isso está na graça de Jesus, e o juízo final pertence a Deus.
Criador do céu e da terra
“Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe” (Salmo 24.1-2). Confessar Deus como criador é afirmar que o mundo não veio do acaso e que cada pessoa existe porque alguém quis criá-la assim — com DNA próprio, com uma impressão digital que não se repete.
Romanos 1.18-23 acrescenta uma consequência séria: os atributos invisíveis de Deus podem ser vistos na própria criação, de modo que quem olha para ela e ainda assim adora a coisa criada em vez do Criador fica sem desculpa. É o que aconteceu com os povos do Antigo Testamento e continua acontecendo hoje, muitas vezes por frases pequenas e aparentemente inofensivas sobre energias e vibrações.
O que muda na prática
Resumindo as primeiras frases do Credo: entrego e confio minha vida a Deus Pai, porque sou filho dele por meio de Jesus Cristo; ele é todo-poderoso e tem poder sobre tudo e sobre todos; e é criador do céu e da terra, de modo que tudo o que existe — inclusive eu — foi criado por ele.
A pergunta que fica é se saber disso muda alguma coisa. Muda saber que não viemos do acaso, mesmo quem carrega uma história de rejeição na família. Muda poder confiar num Deus que tem o poder que nós não temos — sobre as situações que não conseguimos mudar, sobre as pessoas e até sobre nós mesmos. E muda ter em quem se apoiar nos momentos de ansiedade, de angústia e de medo de não dar conta.