Pregações

Cartas para nós: a fama ilusória

Pregada por Daline Moeller · Igreja Luterana em Três Lagoas

Ouvir a pregação

Leitura em voz alta, direto do navegador

Resumo da pregação. Este culto não foi publicado com um texto escrito. O resumo abaixo foi redigido a partir da transcrição automática do vídeo e pode conter imprecisões — a pregação na íntegra está no player acima.

A pregação começa lembrando por que a série existe. Sete, na Bíblia, é plenitude e totalidade — então as sete cartas alcançam todas as igrejas, daquela época e de hoje. Qualquer comunidade pode olhar para uma delas, ou duas, ou três, e reconhecer: isto aqui é sobre nós.

E vem o convite direto: ouvindo estas cartas, você consegue dizer qual delas Jesus poderia estar enviando hoje para a Igreja Luterana em Três Lagoas? De que adianta ouvir uma pregação se ninguém a recebe como palavra dirigida a si?

O texto de apoio é Hebreus 4.12 — a Palavra é viva e eficaz, mais afiada que espada de dois gumes, capaz de dividir alma e espírito e de julgar os pensamentos e as intenções do coração.

A carta

Apocalipse 3.1-6. Quem prega diz que esta carta é pessoal: houve um momento na vida dela, ainda na comunidade de origem, em que a leu e reconheceu — é sobre a igreja em que estou, e é sobre mim.

“Conheço as suas obras; você tem fama de estar vivo, mas está morto. Esteja atento e fortaleça o que resta, o que estava para morrer, pois não achei as suas obras perfeitas aos olhos do meu Deus.”

O que falta nesta carta

Aqui está a observação mais aguda da mensagem, e ela é sobre uma **ausência**.

Duas semanas antes, na carta a Esmirna, o assunto era sofrimento: prisões, mortes, fidelidade sob perseguição. Em Sardes, nada disso aparece. Jesus não fala de perseguição nem de dificuldade.

Ou seja: **estava tudo tranquilo em Sardes.** A paz reinava.

E foi exatamente esse o problema. Quando está tudo bem, é mais fácil ir abandonando aos poucos a intimidade com Jesus. Aquela igreja não estava sofrendo — estava vazia.

Daí a pregação tira uma inversão que contraria o que costumamos pensar: temos o hábito de ler os imprevistos e os percalços como castigo, como coisa que não deveria estar acontecendo. Talvez devêssemos agradecer por eles — porque é neles que a gente se lembra de que sozinho não dá conta e corre de volta para os braços de Deus.

O problema de avaliar pelas obras

Como é que se mede a fé de uma pessoa ou de uma igreja? Pela carta de Tiago, obras revelam fé — e a gente pega esse versículo e o usa para julgar: se não tem obras é porque está morto; se tem obras é porque está vivo.

Só que Sardes tinha fama de estar viva **por causa das obras dela**. As pessoas ao redor a julgavam viva. E esse julgamento estava errado.

Julgamos uns aos outros assim o tempo todo, para o bem e para o mal: formamos um conceito da pessoa a partir do que ela faz, do jeito dela, das ações dela. E fazemos o mesmo com comunidades inteiras.

A lista que a pregação monta é constrangedora de tão reconhecível. Uma igreja com muita gente é uma igreja viva. Uma igreja agitada, cheia de programação, é uma igreja viva. Uma igreja que posta muitas fotos no Instagram é uma igreja viva. Uma igreja em que todo mundo está alegre e levanta a mão no culto. Uma igreja com muitas crianças, muitos jovens, muitos casais. Uma igreja com evento a cada fim de semana.

**Uma igreja pode ser toda agitada e estar vazia de Jesus Cristo.**

E a pregação confessa qual é a pergunta que ela mesma faz quando avalia uma comunidade: como é a pregação ali? Como as pessoas estudam a Palavra? Como são ensinadas a se relacionar com Jesus? Mesmo assim, conclui, a verdade do coração de alguém — ou de uma igreja — não é conhecimento nosso. Pertence a Jesus.

O que a pandemia mostrou

Esta é a parte mais dura, e é sobre a própria comunidade.

“As igrejas, inclusive nós, somos muito mais parecidas com Sardes do que a gente gosta de admitir.”

Ela conta como foi liderar aquele período. Quando veio o “fique em casa”, o que as pessoas queriam era programação: tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. A liderança quase morreu à míngua naquele ano — de cansaço físico e emocional. E não era só ali.

A tentativa foi instruir as pessoas a viver a fé dentro de casa, na intimidade com Jesus. Muitos desfaleceram. Há igrejas que hoje têm um terço dos membros que tinham antes da pandemia. **“Nós reduzimos. Não tanto, mas reduzimos.”**

E então vem o diagnóstico:

**Se a nossa fé depende de programação, de eventos, de células, de retiro, de encontro, das pessoas ao nosso redor — e não de Jesus Cristo —, então nós ainda não entendemos o que é a fé cristã.**

A pregação se antecipa à objeção. Não é que não se deva fazer essas coisas: fazemos, e com alegria, para que as pessoas sejam fortalecidas, para que cheguem à fé, para que amadureçam. É para isso que servem. O problema é **depender** delas.

E fecha essa parte com o próprio testemunho daquele tempo: gravou muitos cultos ali, sozinha com uma equipe mínima, olhando para uma câmera numa igreja vazia. Era difícil. Isso abalou a fé dela? Não. Preocupou-a em relação à igreja — mas não abalou a fé.

Fortaleça o que resta

Nem tudo estava perdido: “você tem aí em Sardes uns poucos que não contaminaram as suas vestes”. Jesus escreve sobre eles para que a igreja também olhasse naquela direção.

E manda: “lembre-se do que você recebeu e ouviu; obedeça e arrependa-se”. Vocês já sabem o evangelho. Voltem para aquilo que aprenderam no começo.

Porque é assim que a gente adoece: a fé esfria, a angústia aparece, e a gente não conta para ninguém. Não busca intimidade, não ora, não se entrega — mas **mantém as obras**, para que ninguém perceba como o coração está machucado.

O câncer espiritual

Aqui a pregação conta a história que dá peso a tudo o que veio antes.

Na faculdade de teologia, foi a época em que ela leu essa carta. Uma colega chegou e disse: sonhei com você. Sonhei que você estava com câncer, e que eu tinha que contar para a sua mãe.

Aquilo, aparentemente aleatório, foi suficiente para ela desabar em choro. A colega perguntou se fazia algum sentido. Fazia — mas ela não contou.

O que ela sentia era **como um câncer espiritual**: algo duro crescendo por dentro, sufocando o coração e a fé. Uma angústia física, um peso, chorar escondida das pessoas, com a sensação de que a fé estava indo embora.

E o que a impedia de falar era o orgulho: ela era ótima aluna. Como dizer uma coisa dessas para a turma? Como dizer isso para os professores que a estavam ensinando tanto?

Até que procurou o pastor da comunidade e chegou chorando: **“eu não sei se, no dia em que eu encontrar Jesus, ele vai olhar para mim e dizer ‘não te conheço’, ou se vai me dar um abraço.”**

O pastor sorriu e respondeu:

**“Você vai ganhar um abraço. Porque você está tão preocupada com as suas obras que está esquecendo que a sua salvação é pela graça de Jesus Cristo.”**

Ele a acompanhou nesse processo, e ela nunca mais precisou sentir aquela angústia. E a colega do sonho, uma semana depois, estava passando exatamente pelo mesmo — sentaram, choraram juntas e cresceram naquilo.

O medo de dizer

Por que era tão difícil falar? Medo de que rissem. Medo de que julgassem. Medo de ouvir “você é menos que eu”.

É por isso que fugimos de boas conversas — e apontamos dedos. Julgamos alguém pelo que faz, quando talvez esteja tão vazio por dentro que nem imaginamos a dor. Ou julgamos pelas obras quando a pessoa só precisava de uma boa conversa, de reconciliação, de perdão.

Orgulho, medo e vergonha, todos os três, e o que está em jogo é a salvação. Não dá para deixar isso morrer por causa deles.

Ele vai te apresentar ao Pai

“O vencedor será igualmente vestido de branco; jamais apagarei o seu nome do livro da vida, **mas o reconhecerei diante do meu Pai e dos seus anjos**.”

A veste branca é ele mesmo limpando: tirando o pecado, tirando tudo aquilo que um dia tentou separar. Não é a pessoa que se limpa.

E a segunda metade do versículo a pregação encena. Pede que alguém da comunidade fique de pé, ali na frente de todos, e descreve a cena: Jesus chegando diante do Pai e apresentando aquela pessoa pelo nome. *Pai, esta aqui é a sua filha. Ela passou por muita coisa. Mas no coração dela eu estava lá.*

É isso que “reconhecer diante do meu Pai” significa. Ele é quem intercede, quem abre o caminho, quem sabe o que verdadeiramente há dentro — e é ele quem nos leva até lá.

E aí a gente vai poder se jogar nos braços do Pai.