Parece estranho falar da Páscoa a partir do primeiro livro da Bíblia. A pregação mostra por quê vale a pena: a libertação que Deus realiza na cruz não começou ali — ela vinha sendo construída desde o princípio, e Gênesis 15 guarda a chave para entendê-la.
O contexto do livro de Gênesis
Gênesis é a história que Moisés conta ao povo de Israel pouco antes de entrarem na terra prometida. Depois de cerca de 430 anos no Egito, boa parte deles em escravidão e cercados de idolatria, aquele povo precisava saber duas coisas: quem era o Deus deles e quem eram eles diante desse Deus.
Por isso Moisés começa pela criação, passa pelo pecado e mostra o plano de Deus para redimir tudo. Esse plano nasce ainda no jardim: ao falar com a serpente, Deus promete que um descendente da mulher lhe esmagará a cabeça, e que isso custará sofrimento. Dali em diante, Gênesis é a história de Deus preservando essa linhagem no meio do mal — em Noé, em Abraão — até que a promessa se cumpre em Jesus Cristo.
A pergunta de Abraão
Deus já havia tirado Abraão de uma terra de idolatria e prometido que aquela terra seria de seus descendentes. Mas os anos passavam, e Abraão questiona: como saber que isso vai se cumprir, se não tenho filhos, se já sou velho e minha esposa também, e se minha herança vai para um servo?
A resposta de Deus é um pedido: “traga-me uma novilha, uma cabra e um carneiro, todos de três anos, e também uma rolinha e um pombinho” (Gênesis 15.9). Nenhuma instrução além disso — Abraão já sabia o que aquilo significava.
O que era “cortar aliança”
No hebraico, a palavra traduzida por “fazer” uma aliança é, na verdade, “cortar”. Reis e povos que firmavam acordo sacrificavam animais, cortavam-nos ao meio e dispunham as metades em duas fileiras. Depois de acertados os termos, as duas partes passavam por entre os pedaços.
Isso não era formalidade. Passar por ali significava: se eu descumprir o que prometi, que o meu destino seja o destes animais. Era um compromisso empenhado com a própria vida — não um acordo verbal que se quebra fácil.
O dia de espera
Abraão trouxe os animais logo cedo, cortou-os, enfileirou as metades e esperou. O dia foi passando e nada acontecia. Aves de rapina começaram a descer sobre os cadáveres, e ele passou o dia inteiro enxotando-as para que não profanassem o sacrifício. Ao pôr do sol estava exausto, caiu em sono profundo, e sobre ele vieram “trevas densas e apavorantes”.
A pregação demora nesse ponto porque ele se repete na vida de quem crê. Há momentos em que parece que Deus não está falando, em que as forças acabam, em que as trevas tomam conta a ponto de não se enxergar luz adiante. Foi exatamente o que o povo de Israel viveu no Egito: só clamaram quando perderam a esperança. Mas não são as circunstâncias que determinam a verdade — e sim o que Deus prometeu.
Quem passou por entre os animais
Então vem o versículo 17: “um fogareiro esfumaçante com uma tocha acesa passou por entre os pedaços de animais”. Deus se revela ali, como depois se revelaria a Moisés na sarça ardente.
E aqui está o centro da mensagem: quem passou foi Deus. Abraão não passou — estava dormindo, exausto, envolto em trevas. O compromisso, que pela cultura da época seria das duas partes, torna-se unilateral. Deus faz Abraão chegar ao fim das próprias forças justamente para mostrar que ele não seria capaz de cumprir sua parte, e então empenha a própria vida como garantia. À pergunta “que garantia eu posso ter?”, a resposta é: a minha vida.
O que isso tem a ver com a Páscoa
Todo o Antigo Testamento aponta para Cristo. Israel sacrificava cordeiros para entrar na presença de Deus, e Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Deus habitava no Santo dos Santos, e quando Jesus morre o véu se rasga. Na Ceia, o cálice é erguido com as palavras “este é o cálice da nova aliança no meu sangue” — aliança cortada, aliança de sacrifício.
A aplicação é direta. Somos incapazes de cumprir a nossa parte: o padrão de santidade que Deus exige é o próprio Cristo, e ninguém alcança isso. Abraão e seus descendentes quebraram a aliança várias vezes, e Deus havia dito que quem a quebrasse morreria. Essa sentença se cumpre — na cruz de Cristo. Nossa parte na história foi quebrar; a parte de Deus foi aceitar a consequência em nosso lugar.
O cálice da ira
A pregação enfrenta uma pergunta incômoda: por que precisa haver juízo? Porque, se Deus simplesmente passasse por cima de toda maldade sem retribuição, ele seria injusto. Pense em alguém que abusou de crianças: prisão perpétua repara o que foi feito? A justiça humana não dá conta.
Existe, então, um cálice que se enche da perversão do mundo e que um dia será derramado. É esse cálice que Jesus vê no Getsêmani quando ora “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” — e que ele bebe na cruz. Quem entrega a vida a Cristo não tem os pecados esquecidos: tem os pecados julgados ali. Quem recusa, escolhe encarar sozinho.
Apenas creia
Abraão não precisou fazer nada além de crer, e foi a fé dele que lhe foi creditada como justiça. Essa é também a resposta diante da Páscoa e da Ceia: crer que ao tomar o corpo de Cristo participa-se da morte dele para o pecado, e que ao beber o cálice se entra na nova aliança. Quem morre com Cristo não permanece na morte — é ressuscitado para uma existência em que o pecado já não domina.
A pregação termina com um exercício sobre João 3.16. No dilema clássico dos trilhos, é mais fácil puxar a alavanca e perder uma vida do que não puxar e perder cinco. Mas se a pessoa sozinha no trilho for um filho amado, ninguém puxa a alavanca — nenhum pai troca o próprio filho por desconhecidos. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho”: foi exatamente isso que ele fez. Essa é a medida do amor que a Páscoa celebra.